Mostrando postagens com marcador psicologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador psicologia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sombras, sonhos e o inconsciente em James Hillman

Depois de ter lido A terrible love of war, de James Hillman, passei a gostar bastante das ideias dele, especialmente também porque ele é um pós-junguiano. Então, na última feira do livro na USP, dando uma olhada aleatória na mesa da editora Paulus, descobri esse livrinho de menos de 140 páginas chamado Uma busca interior em psicologia e religião. Eu não entendi direito pelo título o que eu encontraria e, nas primeiras páginas, fiquei em dúvida se aquilo se tratava de um manual para terapeutas e pastores que orientam a comunidade ou se o livro também não era algo até meio autoajuda. Acredito que não seja nem um e nem outro, mas a escrita de Hillman é bem mais didática e próxima ao leitor do que a de Jung, por isso talvez passe essa última ideia.

A aproximação básica dele, até então (estou entrando no terceiro e penúltimo capítulo), é abordar as conexões e disparidades entre religião e psicologia, bem como discutir o que é o inconsciente e como ambas as áreas trabalham essa questão. As citações que separei vêm do segundo capítulo, no qual o autor trata da existência do inconsciente, suas características e o sonho como uma manifestação do mesmo. Nesse sentido, encontrei pontos com os quais eu trabalhei na minha dissertação, como a noção de um outro em mim mesmo, que é a sombra/inconsciente, e como trabalhar com isso (chegando a usar a metáfora alquímica). 

Esses trechos, para mim, foram alguns dos mais elucidativos e interessantes do segundo capítulo (Vida interior: o inconsciente enquanto experiência) e a primeira página do terceiro (A escuridão interior: o inconsciente enquanto problema moral). Por esse motivo, é possível que eu retorne com uma continuação desse post, com mais citações do terceiro capítulo.

 Pela emoção temos a percepção de não estar sozinhos em nosso interior, de não nos controlar totalmente, de que existe uma outra pessoa (mesmo que seja apenas um complexo consciente) que também tem alguma coisa (e frequentemente não pouca) a dizer quanto ao nosso comportamento. Assim, o encontro da alma por meio do inconsciente também é mais uma descoberta na qual tropeçamos. Caímos em emoções, humores, paixões e descobrimos uma nova dimensão que, por mais que tentemos fugir, acaba nos levando para baixo, em direção ao mundo de nossas profundezas.
 (p.54)

Os alquimistas tinham uma imagem excelente para expressar a transformação do sofrimento e do sintoma em valor espiritual. Um dos objetivos do processo alquímico era a obtenção da pérola de raro valor. A pérola tem início com um fragmento duro, um sintoma neurótico ou uma queixa, um agente incômodo e irritante no ponto mais secreto de dentro da carne, do qual nenhuma couraça pode nos defender. Ele é recoberto e trabalhado dia após dia, até que o fragmento acaba se transformando numa pérola. Mas mesmo assim ela ainda precisa ser buscada nas profundezas e depois aberta para libertar-se. Quando, então, o gramento já se encontra redimido, pode ser utilizado como jóia. Deve ser conservado junto ao calor da pele para manter o seu brilho: o complexo redimido, e que antes causava sofrimento, surge agora aos olhos de todos como uma virtude. O tesouro exotérico, conseguido através do trabalho oculto, transformou-se em esplendor exotérico. Livrar-se do sintoma significa desperdiçar a chance de conseguir aquilo que um dia poderá ter grande valor, mesmo que de início se apresente sob uma forma insuportável, irritante e como algo baixo, disfarçado.
(p.57)

Familiarizando-me com meus sonhos, conheço melhor o meu mundo interior. Quem vive em mim? Por que, de repente, me afasto assim das coisas? O que é recorrente, e portanto, vive voltando para permanecer? São animais, pessoas e lugares, preocupações que me pedem atenção, querendo tornar-me seu conhecido e amigo. Pedem-me para cuidar deles e dar-lhes importância. Essa familiaridade, depois de algum tempo, produz a sensação de estar à vontade e em casa com uma família interior, o que nada mais é que a vida em comum e a comunidade comigo mesmo, num nível profundo do que também pode ser chamado de "espírito consanguíneo".
(p.58)

Os problemas morais constelados nos setores dedicados ao serviço de finalidades mais elevadas são mais espinhosos, sendo aqui a divisão entre o bem e o mal particularmente estranha. Parece que enquanto tentamos iluminar, buscar a verdade e fazer o bem, um lado oposto cresce com a mesma intensidade. É um fenômeno tão independente da intenção de nossa consciência, tão difícil de ser enfrentado com firmeza e igualdade que, gradualmente, uma dissociação acaba por nos dividir. Na melhor das hipóteses aguentamos a tensão, sofrendo a dor moral. Na pior, reprimos a ruptura e o mundo se ressente dela como hipocrisia e traição. Muito dificilmente se resolverá a divisão entre prédica e prática, consciência e sombra, força da loucura e força da sabedoria, escolhendo-se um em detrimento do outro.
(p.71)

domingo, 5 de janeiro de 2014

O arquétipo da criança de Jung em Helnwein

The Song I (1981), aquarela, Gottfried Helnwein

"O motivo da criança representa a pré-consciência, o aspecto da infância da psique coletiva"¹ (p.111)

"Graças à interpretação religiosa da 'criança', uma grande parte das evidências que chegaram a nós da Idade Média mostram que a 'criança' não era apenas uma imagem tradicional, mas uma visão espontaneamente vivenciada (a tão chamada 'irrupção do inconsciente'). Estou me referindo à visão de Mestre Eckhart do 'garoto nu' e do sonho de Irmão Eustachius"² (p.106).

The Murmur of the Innocents 5 (2009), tinta a óleo e acrílica em tela, Gottfried Helnwein

"Na realidade psicológica, no entanto, a idéia empírica da 'criança' é apenas o meio (senão o único existente) de expressar um fato psíquico que não pode ser formulado mais precisamente. Por isso, da mesma forma que a idéia mitológica da criança é enfaticamente não uma cópia da criança empírica, mas um símbolo claramente reconhecível como tal: em circustâncias totalmente extraordnárias e não - este é o ponto - uma criança humana. Suas façanhas são milagrosas ou monstruosas, assim como sua natureza e composição física. Simples e unicamente por conta dessas propriedades altamente não-empíricas, é totalmente necessário falar de um motivo da criança"³ (p.111)

JUNG, Carl G.; KERÉNYI, C. Introduction to a Science of Mythology. The myth of the divine child and the mysteries of Eleusis. Londres: Routdledge & Kegan Paul LTD, 1951


1. The child-motif represents the pre-conscious, childhood aspect of the collective psyche (p.111).

2. Thanks to the religious interpretation of the "child", a fair amount of evidence has come down to us from (p.107) the Middle Ages, showing that the "child" was not merely a traditional figure, but a vision spontaneously experienced (as a so-called "irruption of the unconscious"). I am thinking of Meister Eckhart's vision of the "naked boy" and the dream of Brother Eustachius.

3. In psychological reality, however, the empirical idea "child" is only the means (and not only one) to express a psychic fact that cannot be formulated more exactly. Hence by the same token mythological idea of the child is emphatically not a copy of the empirical child, but a symbol clearly recognizable as such: quite extraordinary circumstances, and not - this is the point - a human child. Its deeds are as miraculous or monstrous as its nature and physical make-up. Simply and solely on account of these highly unempirical properties is it necessary to speak of a "child-motif" at all (p.111).

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Carl G. Jung – O problema do mal no nosso tempo

Seguindo a idéia dos posts anteriores, tanto sobre aquele sobre a culpa coletiva e sobre não entender como as pessoas são capazes de cometer certos crimes quanto o imediatamente anterior, no qual Marie-Louise Franz fala sobre o problema do mal e voltar para si mesmo, esse trecho do artigo O problema do mal no nosso tempo, de Carl Gustav Jung, aborda ambos os assuntos e dá uma iluminada nas idéias abordadas nos textos passados:

"A pessoa que deseja ter uma resposta para o problema do mal, conforme ele se apresenta hoje, necessita, em primeiro lugar, de autoconhecimento, ou seja, do conhecimento mais absoluto possível da sua própria totalidade. Precisa saber a fundo quanto bem pode fazer e de quantos crimes é capaz, e deve evitar encarar um como real e o outro como ilusório. Ambos são elementos da sua natureza e ambos estão destinados a vir à luz nele, se ele desejar — como deveria — viver sem enganar ou iludir a si mesmo. 
Mas, em geral, a maioria das pessoas está por demais distanciada desse nível de consciência; se bem que muitas pessoas hoje em dia possuem em si mesmas a capacidade para uma percepção mais profunda. Esse autoconhecimento é da maior importância, pois através dele nos aproximamos daquele estrato fundamental, ou âmago, da natureza humana onde se situam os instintos. Nessa camada profunda, estão aqueles fatores dinâmicos que existem a priori e que, em última análise, governam as decisões éticas da nossa consciência. Eles compõem o inconsciente e seus conteúdos, a respeito do qual não conseguimos emitir nenhum julgamento definitivo. Nossas idéias sobre o inconsciente estão fadadas a ser inadequadas, pois somos incapazes de compreender cognitivamente sua essência e estabelecer limites racionais para ele. Só podemos alcançar o conhecimento da natureza através de uma ciência que amplie a consciência; logo, o autoconhecimento aprofundado também exige ciência, isto é, psicologia. Ninguém constrói um telescópio ou microscópio com um estalar de dedos e boa vontade, sem conhecimento da óptica. 
Atualmente precisamos da psicologia por razões que envolvem a nossa própria existência. Ficamos perplexos e aturdidos ante o fenômeno do nazismo ou do bolchevismo porque nada sabemos sobre o homem ou porque dele fazemos apenas uma imagem distorcida e desfocada. Se tivéssemos um certo conhecimento de nós mesmos, o caso seria diferente. Estamos face a face com a terrível questão do mal e nem sequer sabemos o que está diante de nós, muito menos que resposta lançar contra ele. E, mesmo se soubéssemos, ainda assim não compreenderíamos "como as coisas chegaram a esse ponto". Demonstrando gloriosa ingenuidade, um estadista recentemente vangloriou-se de não possuir "imaginação para o mal". Muito certo: nós não possuímos imaginação para o mal, mas o mal nos tem em suas mãos. Alguns não querem saber sobre o mal e outros estão identificados com ele. Essa é a situação psicológica do mundo nos nossos dias: alguns se denominam cristãos e imaginam poder, por um simples ato de vontade, calcar o suposto mal sob seus pés; outros sucumbiram ao mal e não vêem mais o bem. O mal, hoje, tornou-se uma Grande Potência".

ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao Encontro da Sombra. O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana. São Paulo: Editora Cultrix, 2004

domingo, 6 de outubro de 2013

Marie-Louise von Franz sobre o problema do mal

Conheci Marie-Louise von Franz semana passada, na minha qualificação. Ela é uma psicóloga suíça junguiana que me foi sugerida a ser estudada para a minha dissertação. Encontrei várias entrevistas dela no YouTube, algumas bem curiosas, como esta aqui, na qual ela fala sobre o problema do mal e sobre, de certa forma, como as pessoas devem voltar para si mesmas em vez de sair às ruas e protestar, porque isso não adianta muito. 

Pelo que entendi, Marie-Louise não defende a censura, obviamente, mas não acha que valha muito a pena gastar dinheiro e energia em protestos e formatos do gênero, porque o que depende mesmo das coisas darem certo é que o inconsciente coletivo mude -  isto é, se a mentalidade das pessoas, em geral, não se modificar, não tem como novas idéias serem postas em funcionamento. E isso faz sentido, não? É um pensamento polêmico, ainda mais para quem acredita que sem protesto não há como mudar o pensamento, mas isso é relativo, já que nem sempre a mensagem é transmitida corretamente - como vimos recentemente nessas manifestações que aconteceram no Brasil. Por isso mesmo, vale a pena assistir ao vídeo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Os discursos de Hitler e a culpa coletiva

Eu vi esse post do Update or Die sobre as fotos que Hitler tirava enquanto ensaiava seus discursos, a gestualidade que ele tentava dominar para então reproduzir mais tarde, quando finalmente chegasse ao poder. O fotógrafo Heinrich Hoffman era responsável por fazer as imagens do austríaco e, no final, era encarregado de se desfazer dos negativos das imagens que demonstravam o pior desempenho do futuro ditador. Mas algumas sobreviveram nos arquivos e foram publicadas em seu livro de memórias em 1955.


O autor do texto se pergunta como alguém conseguiu convencer uma nação com idéias tão absurdas como uma raça superior e outras propostas tão surreais. É realmente estranho para nós, latino-americanos nascidos no fim do século XX e vivendo no século XXI entender isso. Eu mesma, como estudante desse tema e totalmente fora da área de história, tenho extrema dificuldade pra entender (e é por isso mesmo que estudo) e é por estarmos nesse contexto mesmo que surgem outras perguntas que, quem esteve lá, não pensou.

Por exemplo, quando estive em maio em Viena, entrevistando o Gottfried Helnwein, perguntei se em algum momento o fato de ele sempre pintar e fotografar crianças loiras, brancas e de olhos claros e abordar a temática do nazismo não pudesse trazer à tona a idéia paradoxal de que ele estivesse também, por causa dessa escolha estética, abordando o arianismo. E não. Ele me disse que entendeu a pergunta, principalmente porque sou de um país de muitas etnias, mas a Áustria (e também a Alemanha) é, ou pelo menos era à sua época, um país predominantemente branco. Disse-me que nunca havia visto um negro, pessoalmente, quando era criança - isso era algo que se via na televisão. Ou seja, enquanto ele me contava isso, na maior naturalidade, soava quase absurdo: meu Deus! Como assim?! Porque aqui no Brasil é tão normal, há tanto tempo temos uma mistura étnica por aqui. Comentou que se ele fosse chinês, provavelmente fotografaria e pintaria apenas crianças chinesas e assim por diante, como também se houvesse a oportunidade de trabalhar com crianças de outras etnias antes, assim como em 2012 pôde fotografar crianças mexicanas, teria feito.

O que quero dizer com isso? Não podemos pensar como brasileiros o que aconteceu com alemães, austríacos e demais europeus. Dificilmente conseguiremos entender o que realmente foi o nazismo sem tê-lo vivido, ainda que dediquemos uma vida de pesquisa e leitura a isso, mas acho interessante, por exemplo, o que li sobre a questão da culpa coletiva em Jung. Em 1945, o psiquiatra suíço escreveu um artigo chamado Depois da catástrofe no qual ele analisou o sentimento que deu o nome de "culpa coletiva", pondo-o como conceito psicológico. Nesse texto, ele explica que a culpa de um ponto de vista jurídico só pode ser circunscrita a quem violou um direito, enquanto que como fenômeno psíquico, contudo, "ela se estende para além dos limites espaciais e humanos. Um bosque, uma casa, uma família, e até mesmo uma aldeia em que tenha ocorrido um crime sente internamente a culpa psíquica além de ser acusada externamente" (JUNG, 1988, p.18).

E é engraçado que nesse artigo Jung diz que como suíço, no entanto, ele não se vê como cúmplice do nazismo. Diz que os Europeus se punham assim, jogando a culpa das barbaridades da guerra para os alemães apenas, ainda que houvesse um campo de concentração a duzentos quilômetros dali. No entanto, como ele próprio exemplifica, se um hindu que viesse da Ásia e conversasse com ele sobre o assunto, o teria como simplesmente um europeu e as distâncias entre os continentes tornariam os duzentos quilômetros entre a Suíça e Auschwitz irrelevantes.

O mundo discrimina a Europa porque, em última instância, foi em seu solo que cresceram os campos de concentração. A Europa, por sua vez, segrega a Alemanha, apontando as nuvens de culpa que recobrem esse país e o seu povo, pois foi na Alemanha e pelos alemães que tudo isso aconteceu. Nenhum alemão pode negar, da mesma forma que nenhum europeu ou cristão, que o crime mais terrível de todos os tempos foi cometido em sua casa. A Igreja cristã pode cobrir com cinzas a cabeça e rasgar as vestes pela culpa de seus filhos, mas as sombras dessa culpa recaíram sobre eles e sobre toda a Europa, a mãe dos monstros. Da mesma maneira que a Europa precisa ajustar contas com o mundo, a Alemanha deve fazê-lo em relação à Europa. (...) A culpa coletiva psicológica é uma fatalidade trágica; atinge a todos, justos ou injustos, que, de alguma maneira, se encontravam nas proximidades do crime (JUNG, 1988, p.19).

Apesar de Jung acreditar que uma pessoa razoável seja capaz de distinguir entre o sentimento de culpa da verdadeira culpa, isto é, quando o indivíduo realmente cometeu algum delito, o psiquiatra é um tanto pessimista quanto à situação. Isto porque há muita irracionalidade envolvida no processo e quando diz que a culpa coletiva é um preconceito ou uma condenação injusta, Jung não só concorda como também diz que esta é, justamente, a sua essência irracional: "ela jamais se pergunta pelo justo e o injusto, ela é a nuvem sinistra que levanta no lugar de um crime inexpiado" (JUNG, 1988, p.20). Como fenômeno psíquico, a culpa coletiva não condena aqueles que atinge, mas constata um fato.

Para exemplificar uma situação dessas, Jung supõe um homem que vive numa sociedade em que um crime é cometido e acaba suscitando sentimentos apaixonados e interessados por parte do público. Essas emoções demonstram que "praticamente todo mundo, desde que não seja insensível ou apático de forma anormal, é excitado pelo crime. Todos vibram conjuntamente, todos se sentem dentro do crime, tentam compreendê-lo e esclarecê-lo... Algo se acende, o fogo do mal que flameja no crime" (JUNG, 1988, p.21). Citando Platão, o psicanalista suíço lembra que a visão do feio provoca o feio na alma e a indignação diante do crimoso provoca a reação violenta, mas ao mesmo tempo apaixonante, na qual o espectador tenta punir o infrator já dentro da sua própria alma. E, assim, "o assassinato acontece, em parte, dentro de cada um e todos, em parte, o cometeram. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção" (Idem).

Ou seja, não precisamos matar alguém com as mãos para poder, em nossas almas (ou mentes), repetir o ato. É a sedução pelo mal, a emergência do Vampyroteuthis sob a forma de romantismo do tipo nazismo, sob a forma de Wotan, de sombra.

Disposições morais fortes, porém, são infelizmente raras. Quando os crimes aumentam, a indignação predomina e o mal se converte em moda. De santo, louco e criminoso todos temos 'estatisticamente' um pouco. Graças à essa condição humana universal existe, em todas as partes, uma sugestibilidade correspondente ou propensão. A nossa época, isto é, os últimos cinquenta anos, preparou o caminho para o crime. Será que, por exemplo, o grande interesse pelos romances policiais não nos parece suspeito? (JUNG, 1988, p.21).

São só alguns pensamentos e algumas amostrinhas do que tenho descoberto durante minhas pesquisas do mestrado. :) Eu já tinha dado uma amostrinha dessas idéias neste post com uma citação dessa obra do Jung, mas aqui desenvolvi um pouco mais, linkando com outras postagens. Espero que tenham gostado.

Referências

JUNG, Carl Gustav. Aspectos do Drama Contemporâneo. Petrópolis: Editora Vozes, 1988

PS: Sobre a teatralidade de Hitler, a forma como ele fazia o discurso e como as pessoas entravam nisso de um ponto de vista oratório, sem entrar no mérito da oratória mesmo e da publicidade, eu acredito que isso tenha muito a ver com a questão do ritual. Agora eu não tenho exatamente referências suficientes para escrever um bom post sobre isso, apesar de ter estudado um pouquinho sobre isso durante a graduação, com ajuda do meu orientador Prof. Dr. José Eugenio de Oliveira Menezes. Conversei justamente sobre isso com uns amigos no fim de semana. Se tiverem interesse sobre isso, posso dar uma lida em algum material e fazer um novo post futuramente, só me deixem saber mesmo.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Fascínio pelo mal, em Jung

Em 1945, Jung escreveu isso sobre a culpa coletiva sentida pelos alemães e pelos europeus por conta dos crimes cometidos pelo nazismo e durante a Segunda Guerra Mundial:

"A sensação que todo crime provoca, o interesse apaixonado pela perseguição e julgamento do criminoso, etc., demonstram que praticamente todo mundo, desde que não seja insensível ou apático de forma anormal, é excitado pelo crime. Todos vibram conjuntamente, todos se sentem dentro do crime, tentam compreendê-lo e esclarecê-lo... Algo se acende, o fogo do mal que flameja no crime. Platão já sabia que a visão do feio provoca o feio na alma. A indignação e a exigência de punição se levantam contra o assassino e isso tanto mais violenta, apaixonada e odiosamente quanto mais ferver a chispa do mal dentro da própria alma. É um fato inegável que o mal alheio rapidamente se transforma no próprio mal, na medida em que acende o mal da própria alma. O assassinato acontece, em parte, dentro de cada um e todos, em parte, o cometeram. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção. Com isso, estamos irremediavelmente imiscuídos na impureza do mal, qualquer que seja o uso que dele fizermos. Nossa indignação moral cresce em virulência e desejo de vingança quanto mais forte arder em nós a chama do mal. Disso ninguém pode escapar, pois somos todos humanos e pertencemos igualmente à comunidade dos homens. Assim, todo crime desencadeia num recanto de nossa mente múltipla e variada uma satisfação secreta que, por sua vez, em caso de disposição moral favorável, produz uma reação oposta nos compartimentos vizinhos. Disposições morais fortes, porém, são infelizmente raras. Quando os crimes aumentam, a indignação predomina e o mal se converte em moda. De santo, louco e criminoso todos temos 'estatisticamente' um pouco. Graças a essa condição humana universal existe, em todas as partes, uma sugestibilidade correspondente ou propensão. A nossa época, isto é, os últimos cinquenta anos, preparou o caminho para o crime. Será que, por exemplo, o grande interesse pelos romances policiais não nos parece suspeito?" 
(Carl G. Jung, Depois da catástrofe, 1945)

domingo, 5 de maio de 2013

TRANSfiGURATION, de Olivier De Sagazan, e Der Untermensch, de Gottfried Helnwein



A performance TRANSfiGURATION do artista Olivier De Sagazan tem como proposta pensar sobre identidade - não aquela cultural ou nacional, mas quem somos nós? Usando algo como argila para montar seus novos rostos de aspecto monstruoso, o performer ainda colore as novas faces com tinta preta e vermelha, que são tons que bem traduzem a violência e a aflição de seus gestos e murmuros.

TRANSfiGURATION faz parte do filme Samsara (2011), de Ron Fricke, o qual contou com a produção de Mark Magidson, que também colaborou com o filme Baraka (1992). Filmado durante cinco anos, em 25 países, o longa continua os assuntos desenvolvidos em Baraka (1992) e Chronos (1985) ao explorar as maravilhas do nosso mundo, sejam estas parte do âmbito mundano ou místico, sempre tendo em vista a jornada espiritual do ser humano e as experiências vivenciadas por estes, durante esse processo. Trata-se de um filme de certa forma documental, mas que se preocupa mais em propôr uma meditação aos seus espectadores.

E a performance do francês, isoladamente, também não deixa de fazer esse convite. Ao vestir (ou mostrar) suas diversas faces (personas), Olivier quer que a audiência saia da sua zona de conforto e olhe para dentro de si, desde suas partes mais claras às mais obscuras e incômodas. Com isso poderíamos pensar no processo de individuação ou mesmo o encontro (e confronto) com a nossa sombra, um primeiro passo antes de nos aventurarmos com nossa anima.

"Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções" 
JUNG (2000, p.39).

Esse vídeo me chamou ainda mais atenção porque me lembrou os auto-retratos de Gottfried Helnwein, reunidos na série Der Untermensch (1970-1987). Nela o artista retoma aquilo que fazia no início de sua carreira artística: saía pelas ruas de Viena usando bandagens e sangue no rosto, desfigurando-se tais como os fetos deformados que fotografara na série Sleeping Angels e como demais personagens que aparecem em sua obra. O artista se torna um subhumano - um subproduto do inconsciente, um subproduto das relações humanas, a subconsciência.

The Debut (1987) - Gottfried Helnwein

"Como uma pessoa tão amigável como Helnwein consegue tornar essas - excelentes - pinturas em um espelho dos horrores deste século? Ou é isso que ele não consegue deixar de fazer? Seu espelho apenas reflete as atitudes do século? TERROR SEM FIM É MELHOR QUE UM FIM EM TERROR. Acontece de quando em quando - estimativa de morte, uma consequência das 'estastísticas' tornando-a um tabu. Perseu guilhotina a Górgona no espelho -, e quando a cabeça cai, é a sua própria. Quantas cabeças uma pessoa/homem pode ter na nossa era de espelhos?"
Müller (1988)

Referências

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Editora Vozes, 2000
MÜLLER, Henry. Black Mirror. 1988. Disponível em: <http://italia.helnwein.com/texte/selected_authors/artikel_117.html>

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Análise do vídeo Mein Herz brennt, do Rammstein

Originalmente parte do álbum Mutter (2001), a música Mein Herz brennt faz parte de um novo single lançado pela banda alemã Rammstein, neste ano. A gravação, que leva o mesmo nome da faixa, traz uma versão em piano, um remix da Boys Noise, uma canção inédita chamada Gib mir deine Augen e a versão do clipe, que foi divulgado no último dia 7. Dirigido por Zoran Bihać (que também trabalhou com a banda nos vídeos de Links 2-3-4, Mein Teil e Rosenrot), o clipe original (ou explícito) também conta com um outro que traz Till cantando Mein Herz brennt na versão piano. Ambas as obras audiovisuais foram gravadas na mesma locação, o antigo hospício Beelitz, mais especificamente no sanitário principal.

Da primeira vez que vi, achei que o Rammstein estivesse outra vez trabalhando com o Gottfried Helnwein, já que tem todo um reforço monocromático, figuras enigmáticas e sombrias e também crianças - que é o que mais me fez pensar no artista austríaco. Mas não. Bem, dêem uma olhada na versão explícita.



Seria muito fácil associar toda essa imagética ao período nazista por motivos bastante óbvios e que já motivaram muitas pessoas a chegarem a essa conclusão: banda alemã, música cantada em alemão, violência, pessoas em condições desumanas, agonia etc. Mas, se a letra for observada separadamente, é possível perceber que a temática pode não falar sobre tal período histórico.

Mein Herz Brennt
Meu Coração Queima


Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich hab euch etwas mitgebracht
eu trouxe para vocês algo comigo
hab es aus meiner Brust gerissen
que arranquei do meu próprio peito
mit diesem Herz hab ich die Macht
com este coração, possuo o poder
die Augenlider zu erpressen
de exercer controle sobre as pálpebras
ich singe bis der Tag erwacht
eu canto até o dia despertar
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima

Sie kommen zu euch in der Nacht
Eles vêm até vocês à noite
Dämonen Geister schwarze Feen
Demônios espíritos fadas negras
sie kriechen aus dem Kellerschacht
Eles se arrastam para fora de cavernas subterrâneas
und werden unter euer Bettzeug sehen
E vêm espiar embaixo de suas cobertas

Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich hab euch etwas mitgebracht
eu trouxe para vocês algo comigo
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima


Sie kommen zu euch in der Nacht
Eles vêm até vocês à noite

und stehlen eure kleinen heißen Tränen
e roubam suas cálidas pequenas lágrimas
sie warten bis der Mond erwacht
eles esperam até que a lua desperte
und drücken sie in meine kalten Venen
e se esquivam dentro das minhas veias frias


Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich singe bis der Tag erwacht
eu canto até o dia despertar
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima

Segundo informação retirada do Wikipedia, do verbete sobre o single em inglês, a música aborda um narrador que descreve os terrores de seus pesadelos, de modo que os primeiros versos (Nun, liebe Kinder, gebt fein Acht. Ich habe euch etwas mitgebracht") foram retirados de um programa de tv infantil dos anos 1950, chamado Das Sandmännchen (O pequeno Sandman). Em todo episódio, o personagem contava histórias de dormir, o que acabou inspirando uma versão mais obscura, nessa composição do Rammstein.

Capa do single Mein Herz brennt

Essa personagem mascarada que aparece tanto no clipe quanto na figura acima lembra figuras que fazem parte da história espanhola, na qual o chapéu pontiagudo feito de papelão, chamado "capirote", era usado por flagelados, por sentenciados de pena capital e, durante a Inquisição, os acusados eram obrigados a vestir o modelo ao serem postos sob humilhação em público. O capirote também compunha a indumentária dos nazarenos espanhóis durante alguns de seus atos, na época da Páscoa. Mais tarde, esse mesmo acessório apareceria como inspiração ao grupo Ku Klux Klan que, originalmente, teria se baseado no filme Birth of a Nation, de D. W. Griffith, cujos estilistas retiraram a informação, justamente, do capirote.

Cena de Birth of a Nation

Geißlerprozession (1812-1814), ou Procissão dos Flagelados, de Goya

No hubo remedio (1799), de Goya, parte da coleção Los Caprichos 

Nessa última imagem, podemos vislumbrar que a roupa do personagem central se parece muito com a qual Till veste no começo do clipe, ao usar a máscara com seus olhos impressos e também na versão em piano da música.


Bem, essa é uma alusão que pode ser feita quanto aos elementos pictóricos e suas referências. Acredito que o uso desse chapéu em figuras obscuras seja uma forma que a cultura pop tem se apropriado para criar seres assustadores, desde os Pyramid Heads de Silent Hill até os personagens das fotografias do artista finlandês Juha Arvid Helminen. Mas mais que isso, acho que o vídeo se preocupa em trazer um aspecto onírico próprio ao pesadelo, ainda que este não seja totalmente surreal e despedaçado, porque acompanhamos narrativa mais ou menos linear que se mostra conectada com um passado, que aparece no começo do vídeo na forma de uma foto de uma classe ou de um grupo de crianças, que também é exposto diante de uma parede, vestindo sacos com caretas desenhadas.


E eu tomo essa referência como a mais forte no vídeo do que qualquer ligação com o nazismo que eventualmente possa aparecer. É o fio da meada da minha análise¹. Penso que os pesadelos da letra tenham sido interpretados como pesadelos da infância de um grupo de pessoas, no caso, interpretado pela banda. Esses personagens teriam crescido num orfanato, no qual eram cuidados por uma mulher, que aparece ora como um ser quase assexuado, ora como jovem e ora como velha. 

No primeiro caso, há duas diferentes aparições, uma como ser que vem perturbar à noite (Sie kommen zu euch in der Nacht/Dämonen, Geister, schwarze Feen/sie kriechen aus dem Kellerschacht/und werden unter euer Bettzeug sehen - Eles vêm até vocês à noite/Demônios, espíritos, fadas negras/Eles se arrastam para fora de cavernas subterrâneas/e vêm espiar debaixo de suas cobertas), mas essa mesma figura nua também aparece com uma armação para vestidos antigos, sob a qual esconde ou protege suas crianças, e numa clínica ginecológica - nesses dois últimos exemplos, percebemos que se trata de uma mulher.

A criatura que surge à noite para perturbar e causar pesadelos, o mesmo demônio ou goblin que citei em minha monografia Kunst ist Krieg e que dá nome à banda na qual me foquei, a austríaca Nachtmahr. Este é o nome do ser mitológico germânico que deita no peito da vítima, sufocando-a e dizendo-lhe coisas ao pé do ouvido, de modo a fazê-la ter maus sonhos, como representado em pinturas de Johann Heinrich Füssli

Aqui a figura materna a proteger crianças

Numa das partes do vídeo, essa mesma personagem aparece numa espécie de consultório ginecológico, tentando utilizar um instrumento em sua região pélvica, o que faz parecer algum tipo de método abortivo

Mais tarde, a banda aparece circundando a personagem, numa cena muito parecida com uma fotografia feita por Gottfried Helnwein, depois modificada quando transposta numa pintura em tela

Da primeira vez que vi esse cenário hospitalar, no qual a figura feminina está sob a inspeção de um grupo de homens, os quais são os integrantes da banda, pensei que talvez se tratasse de uma analogia de uma forma de eles atingirem a personagem feminina que povoa suas mentes através de uma terapia ou análise, por exemplo, mas depois vi que era mais uma cena ginecológica, como um parto. De qualquer forma, acho que essa última conclusão não descarta a primeira, porque ainda estamos em âmbito clínico e a metáfora se estenderia à medida que essa personagem é uma mulher responsável por cuidar das crianças apresentadas no clipe e são estas mesmas que fazem seu parto - ou continuam seu procedimento abortivo, portanto, trata-se de uma mulher que não está pronta ou não está na posição de ser mãe, naquele momento, que tem filhos postiços e que não os reconheceria também.


Nesse trecho do vídeo (figuras acima), o personagem de Till confronta a mulher que teria cuidado dele durante sua infância e, por isso, ele a revisita em sua juventude (memória infantil), mas também em sua velhice (memória mais recente e amadurecida). A figura feminina, sempre representada como frágil e pura ao longo do clipe, aparece aqui munida de uma arma, o que a põe na defensiva, como alguém que está pronta para matar, isto é, atacar. Ela protege suas crianças assim como quando as põe debaixo da sua saia, em seu "ninho", mas isso não significa que seus métodos não deixem de ferir esses indivíduos.


Essa cena tanto poderia ser pensada como um método de tortura ou de experimentação com as crianças, sendo revivido no personagem já adulto. Isso é reforçado em outras partes, quando uma garota é visitada durante à noite pela "fada negra" (lembrando a veste negra da figura feminina), então toda em branco, como um fantasma e um demônio que lhe causa pesadelos. Detalhe para o crucifixo no pescoço da personagem.



Ou seja, essas crianças realmente eram submetidas a tratamentos desumanos, ainda que sua "tutora" possua traços angelicais - o que torna o procedimento ainda mais aterrorizante. 


E, por isso, as crianças vestem máscaras de expressão enigmática - não sorriem, mas também não choram, não demonstram nada, apenas escondem. Estão presas num porão onde são assombradas pela figura de chapéu pontiagudo, o horror da infância, que está sempre presente para vigiá-las em seu cativeiro - no porão da mente, no inconsciente. Essa representação acaba ganhando os trajes dos condenados da Inquisição espanhola, como na figura de Goya, que inclusive faz parte de uma coleção na qual o artista propunha uma crítica anticlerical. É possível, então, que a presença do crucifixo no pescoço da mulher não seja assim tão gratuita, mas também traga uma mensagem próxima à do pintor espanhol. Portanto, a narrativa se passaria num orfanato dirigido por freiras, mulheres religiosas - o que é uma prática bem comum.

Assim, as crianças crescem ali, trancafiadas, vigiadas por um trauma que permanece em seu coração, "queimando", querendo explodir seja em forma de ódio/violência ou de amor/paixão. É por isso que o personagem de Till, ao mesmo tempo que tenta sufocar a mulher, também a beija com furor. É a pulsão de Eros e de Tânatos, na qual Freud rememora como popularmente chamado de "ambivalência de sentimentos", mas que diz respeito sobre a tênue linha entre amor e ódio².


"O que mais facilmente se observa e é mais acessível à compreensão é o fato da freqüente coexistência, na mesma pessoa, de um intenso amor e de um ódio intenso. A psicanálise acrescenta ainda a tal que ambos os impulsos sentimentais contrapostos tomam, não raro, também a mesma pessoa como objeto. Só após a superação de todos estes “destinos da pulsão” se apresenta o que denominamos o caráter de um homem, o qual, como se sabe, só muito insuficientemente se pode classificar como “bom” ou “mau”" (FREUD, 1915)

Libertados desse ódio, sentimento anímico, como diz Freud (e me faz remeter à figura feminina da anima em contraposição ao masculino do animus segundo Jung, já que o ódio, no vídeo, é concentrado em uma mulher), essas crianças, então homens, podem fugir do porão onde ficaram trancafiados, presos pelo trauma e pelas memórias, tomando a decisão que os daria um caráter, já que eles superaram essa pulsão após "matarem" o seu ódio (enforcando a mulher) e queimando suas memórias, isto é, o orfanato. E tudo isso acontece num processo doloroso, no qual Till tem seu peito perfurado, seu coração arrancado e comido, lembrando a expressão "eat someone's heart", que significa sentir uma amarga angústia ou tristeza.





"As evoluções psíquicas possuem, de fato, uma peculiaridade que não ocorre em nenhum outro processo evolutivo. Quando uma aldeia se torna cidade ou uma criança se faz homem, a aldeia e a criança são absorvidas pela cidade e pelo homem. Só a recordação pode delinear os antigos traços na nova imagem; na realidade, os materiais ou as formas anteriores foram deixados de lado e substituídos por outros. As coisas passam-se de modo diferente numa evolução psíquica"  (FREUD, 1915)
 Reparem no chapéu pontiagudo e como a figura negra que veste o mesmo acessório continua sendo parte deles mesmos, ou seja, é o próprio trauma. Aqui fogem como crianças, de modo que deveriam ter feito isso muito antes, mas só conseguem fazer na maturidade, ao se tornarem homens e enfrentarem uma evolução psíquica




 Outrora amparados pela "tutora", agora carregando as tochas que incendiam seus passados e medos

 No final, eles fogem dessas memórias, destruindo-as, mas ainda olham para trás. O que me faz pensar... será que é tão fácil assim superar um medo ou um trauma? Apenas sufocando-o, matando-o? Como a aldeia ao se tornar cidade ou a criança ao se tornar homem? Será que eles não continuariam "presos à barra da saia da mãe", como diz um dito popular? Uma possível resposta vem também de Freud

"Dada a falta de mutações, o estado psíquico anterior pode não se ter manifestado em muitos anos, no entanto, persiste de tal modo que em qualquer momento se pode tornar de novo a forma expressiva das forças anímicas, e até a única, como se todas as evoluções ulteriores se tivessem anulado ou regredido. Esta plasticidade extraordinária das evoluções psíquicas não é, na sua orientação, ilimitada; pode considerar-se como uma faculdade especial de involução – regressão – pois sucede, por vezes, que um estádio evolutivo ulterior e superior, que foi abandonado, já de novo se não pode alcançar. Mas os estados primitivos podem sempre ser reconstituídos; o psíquico primitivo é, no sentido mais pleno, imperecível. As chamadas enfermidades mentais despertarão no leigo a impressão de que a vida mental e psíquica ficou destruída. Na realidade, a destruição concerne apenas a aquisições e a desenvolvimentos ulteriores. A essência da enfermidade mental consiste no retorno a estados anteriores da vida afectiva e da função" (FREUD, 1915)
Acredito que esse retorno seja percebido na versão em piano da música. O vídeo, que conta apenas com a atuação do vocalista Till Lindemann, é extremamente expressivo ao demonstrar a loucura e sofrimento do personagem que, no fim das contas, retorna ao calabouço, ao porão de suas memórias, retrocedendo ao seu estado primitivo de medo e sombras. É nesse momento que sobe uma fumaça, como um espírito libertado, não mais através da superação psíquica, mas talvez pelo método da morte.






Referências

Tradução de Mein Herz brennt: http://letras.mus.br/rammstein/32293/traducao.html
FREUD, Sigmund. Escritos sobre a guerra e a morte. 1915 
Mein Herz brennt - Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Mein_Herz_brennt


¹ Esta é uma análise rápida e superficial do clipe, a qual poderia ser ainda mais desenvolvida, mas quis me ater a apenas algumas possibilidades e interpretações pessoais, sem nenhuma pretensão acadêmica ou científica.
² Ainda poderia abordar a questão de Édipo, mas não acredito que isso tenha um peso muito grande neste clipe.

domingo, 8 de julho de 2012

Sobre o fracasso da razão na ética da modernidade

Multidão faz saudação nazista no Estádio Olímpico de Berlim, nos Jogos de 1936

Gostaria de compartilhar com vocês o ensaio escrito por um aluno de psicologia da UNESP, Arthur Targa. Por ser leitor desse blog e se interessar pelos assuntos abordados aqui, ele encontrou em contato comigo para anunciar seu trabalho a respeito do nazismo. Trata-se de um texto quase arqueológico a respeito do fenômeno, trazendo à tona detalhes que muitas vezes não são abordados em discussões triviais sobre o tema, além de propor uma nova interpretação a partir da dicotomia razão x irracionalidade que já tratei, sob outro viés, em post anterior.

Deixo aqui avisado que estou apenas compartilhando o trabalho, não querendo emitir julgamentos a respeito do conteúdo - isto é, não significa que concordo plenamente com tudo que foi apresentado, só gostaria que mais pessoas pudessem ler esse escrito.


Sobre o Fracasso da Razão - Um Ensaio -