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quinta-feira, 11 de junho de 2015
terça-feira, 2 de setembro de 2014
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Música experimental no Brasil, música industrial no exterior
A Petrobrás junto à TV PUC, em 2003, lançou o documentário Alquimistas do Som sobre a música experimental no Brasil. Um gênero que passou um pouco despercebido diante do brilho cultural da vertente tropicalista, a música experimental possui uma sofisticação e uma conexão com a cena de outros países que vale a pena ser ressaltada aqui no blog, onde tratamos vez ou outra sobre a música industrial, por exemplo. A obra conta com depoimentos de Tom Zé, Egberto Gismonti, Carlos Rennó e Arrigo Barnabé, além do maestro Júlio Medaglia, Lenine e Arnaldo Antunes.
Logo nos primeiros minutos do documentário, Tom Zé aparece comentando sobre a performance Música e Músicas, de 1978, no qual a banda utiliza uma espécie de sampleamento de gravações de rádio para compôr uma canção múltipla que, aos poucos, vai se complementando com a presença de enceradeiras, serrotes, rádios a pilha e outras ferramentas do cotidiano que se misturam a violões e vocais repetitivos ou que cantam jingles de publicidade. Música dadaísta, música ferramental, música da fábrica, industrial. Essa performance me chamou muito a atenção porque me lembrou imediatamente o começo do filme Halber Mensch, filmado por Sogo Ishii, em 1986, isto é, 8 anos depois com a banda alemã de música industrial Einstürzende Neubauten.
Logo nos primeiros minutos do documentário, Tom Zé aparece comentando sobre a performance Música e Músicas, de 1978, no qual a banda utiliza uma espécie de sampleamento de gravações de rádio para compôr uma canção múltipla que, aos poucos, vai se complementando com a presença de enceradeiras, serrotes, rádios a pilha e outras ferramentas do cotidiano que se misturam a violões e vocais repetitivos ou que cantam jingles de publicidade. Música dadaísta, música ferramental, música da fábrica, industrial. Essa performance me chamou muito a atenção porque me lembrou imediatamente o começo do filme Halber Mensch, filmado por Sogo Ishii, em 1986, isto é, 8 anos depois com a banda alemã de música industrial Einstürzende Neubauten.
À direita, "Alquimistas do Som" (00:01:28). À esquerda, "Halber Mensch" (05:38). O primeiro usa uma enceradeira, o segundo usa uma lixa contra uma placa de metal
Alquimistas do Som (00:01:49) usando serrotes contra uma superfície metálica. Halber Mensch (05:12) usando um bastão de metal contra um carrinho de supermercado
Alquimistas do Som (00:01:51), instrumentos musicais + instrumentos de solda. Halber Mensch (05:57) uso do martelo contra superfície metálica em substituição de baquetas e tambor
É claro que o estilo do Einstürzende Neubauten é bem diferente, mas a estética da performance e as referências feitas ao cenário industrial, a crítica à mídia e a colagem dadaísta são características da música experimental brasileira que entram em congruência com a música industrial que acontecia lá fora. Mesmo porque isso foi em épocas próximas, levando em conta que a música industrial começou com bandas como Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire e Einstürzende Neubauten justamente no fim dos anos 70.
Fica aí a sugestão.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Carl Gustav Jung fala sobre a morte
Algumas citações desse vídeo:
The psyche doesn't depend on these confinements. And then what? When the psyche is not under that obligation to live in time and space alone, and obviously it doesn't, then, to that extent, the psyche is not supressed to those worlds. That means a practical continuation of life, of a sort of kind of psychic existence beyond time and space.*
~
"Belief is a difficult thing for me. I don't believe. I must have a reason for a certain hypothesis. If I know a thing, I'm gonna know it, I don't need to believe it. If I don't allow myself, for instance, to believe a thing just for the sake of believing it, I can't believe it, but when there are sufficient reasons for a certain hypothesis, I shall accept".
~
"Life behaves as if it were going on. So I think it's better for old people to live on, to look forward to the next day as if he had to expend centuries and then he lives properly. But when he is afraid, when he doesn't look forward, he looks back, it petrifies you. He dies before his time. But when he is living looking forward to a greater adventure that is ahead, then he lives".
* tive dificuldade em ouvir essa parte, então, se tiver trocado alguma palavra, por favor me corrijam :) mas acredito que mantive o sentido daquilo que ele quis dizer, no vídeo.
Visto em OPEN CULTURE
Visto em OPEN CULTURE
domingo, 5 de maio de 2013
TRANSfiGURATION, de Olivier De Sagazan, e Der Untermensch, de Gottfried Helnwein
A performance TRANSfiGURATION do artista Olivier De Sagazan tem como proposta pensar sobre identidade - não aquela cultural ou nacional, mas quem somos nós? Usando algo como argila para montar seus novos rostos de aspecto monstruoso, o performer ainda colore as novas faces com tinta preta e vermelha, que são tons que bem traduzem a violência e a aflição de seus gestos e murmuros.
TRANSfiGURATION faz parte do filme Samsara (2011), de Ron Fricke, o qual contou com a produção de Mark Magidson, que também colaborou com o filme Baraka (1992). Filmado durante cinco anos, em 25 países, o longa continua os assuntos desenvolvidos em Baraka (1992) e Chronos (1985) ao explorar as maravilhas do nosso mundo, sejam estas parte do âmbito mundano ou místico, sempre tendo em vista a jornada espiritual do ser humano e as experiências vivenciadas por estes, durante esse processo. Trata-se de um filme de certa forma documental, mas que se preocupa mais em propôr uma meditação aos seus espectadores.
E a performance do francês, isoladamente, também não deixa de fazer esse convite. Ao vestir (ou mostrar) suas diversas faces (personas), Olivier quer que a audiência saia da sua zona de conforto e olhe para dentro de si, desde suas partes mais claras às mais obscuras e incômodas. Com isso poderíamos pensar no processo de individuação ou mesmo o encontro (e confronto) com a nossa sombra, um primeiro passo antes de nos aventurarmos com nossa anima.
"Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções"
JUNG (2000, p.39).
Esse vídeo me chamou ainda mais atenção porque me lembrou os auto-retratos de Gottfried Helnwein, reunidos na série Der Untermensch (1970-1987). Nela o artista retoma aquilo que fazia no início de sua carreira artística: saía pelas ruas de Viena usando bandagens e sangue no rosto, desfigurando-se tais como os fetos deformados que fotografara na série Sleeping Angels e como demais personagens que aparecem em sua obra. O artista se torna um subhumano - um subproduto do inconsciente, um subproduto das relações humanas, a subconsciência.
The Debut (1987) - Gottfried Helnwein
"Como uma pessoa tão amigável como Helnwein consegue tornar essas - excelentes - pinturas em um espelho dos horrores deste século? Ou é isso que ele não consegue deixar de fazer? Seu espelho apenas reflete as atitudes do século? TERROR SEM FIM É MELHOR QUE UM FIM EM TERROR. Acontece de quando em quando - estimativa de morte, uma consequência das 'estastísticas' tornando-a um tabu. Perseu guilhotina a Górgona no espelho -, e quando a cabeça cai, é a sua própria. Quantas cabeças uma pessoa/homem pode ter na nossa era de espelhos?"
Müller (1988)
Referências
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Editora Vozes, 2000
MÜLLER, Henry. Black Mirror. 1988. Disponível em: <http://italia.helnwein.com/texte/selected_authors/artikel_117.html>
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Análise do vídeo Mein Herz brennt, do Rammstein
Originalmente parte do álbum Mutter (2001), a música Mein Herz brennt faz parte de um novo single lançado pela banda alemã Rammstein, neste ano. A gravação, que leva o mesmo nome da faixa, traz uma versão em piano, um remix da Boys Noise, uma canção inédita chamada Gib mir deine Augen e a versão do clipe, que foi divulgado no último dia 7. Dirigido por Zoran Bihać (que também trabalhou com a banda nos vídeos de Links 2-3-4, Mein Teil e Rosenrot), o clipe original (ou explícito) também conta com um outro que traz Till cantando Mein Herz brennt na versão piano. Ambas as obras audiovisuais foram gravadas na mesma locação, o antigo hospício Beelitz, mais especificamente no sanitário principal.
Da primeira vez que vi, achei que o Rammstein estivesse outra vez trabalhando com o Gottfried Helnwein, já que tem todo um reforço monocromático, figuras enigmáticas e sombrias e também crianças - que é o que mais me fez pensar no artista austríaco. Mas não. Bem, dêem uma olhada na versão explícita.
Mein Herz Brennt
Meu Coração Queima
Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich hab euch etwas mitgebracht
eu trouxe para vocês algo comigo
hab es aus meiner Brust gerissen
que arranquei do meu próprio peito
mit diesem Herz hab ich die Macht
com este coração, possuo o poder
die Augenlider zu erpressen
de exercer controle sobre as pálpebras
ich singe bis der Tag erwacht
eu canto até o dia despertar
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima
Sie kommen zu euch in der Nacht
Eles vêm até vocês à noite
Dämonen Geister schwarze Feen
Demônios espíritos fadas negras
sie kriechen aus dem Kellerschacht
Eles se arrastam para fora de cavernas subterrâneas
und werden unter euer Bettzeug sehen
E vêm espiar embaixo de suas cobertas
Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich hab euch etwas mitgebracht
eu trouxe para vocês algo comigo
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima
Sie kommen zu euch in der Nacht
Eles vêm até vocês à noite
und stehlen eure kleinen heißen Tränen
e roubam suas cálidas pequenas lágrimas
sie warten bis der Mond erwacht
eles esperam até que a lua desperte
und drücken sie in meine kalten Venen
e se esquivam dentro das minhas veias frias
Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich singe bis der Tag erwacht
eu canto até o dia despertar
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima
Da primeira vez que vi, achei que o Rammstein estivesse outra vez trabalhando com o Gottfried Helnwein, já que tem todo um reforço monocromático, figuras enigmáticas e sombrias e também crianças - que é o que mais me fez pensar no artista austríaco. Mas não. Bem, dêem uma olhada na versão explícita.
Seria muito fácil associar toda essa imagética ao período nazista por motivos bastante óbvios e que já motivaram muitas pessoas a chegarem a essa conclusão: banda alemã, música cantada em alemão, violência, pessoas em condições desumanas, agonia etc. Mas, se a letra for observada separadamente, é possível perceber que a temática pode não falar sobre tal período histórico.
Meu Coração Queima
Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich hab euch etwas mitgebracht
eu trouxe para vocês algo comigo
hab es aus meiner Brust gerissen
que arranquei do meu próprio peito
mit diesem Herz hab ich die Macht
com este coração, possuo o poder
die Augenlider zu erpressen
de exercer controle sobre as pálpebras
ich singe bis der Tag erwacht
eu canto até o dia despertar
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima
Sie kommen zu euch in der Nacht
Eles vêm até vocês à noite
Dämonen Geister schwarze Feen
Demônios espíritos fadas negras
sie kriechen aus dem Kellerschacht
Eles se arrastam para fora de cavernas subterrâneas
und werden unter euer Bettzeug sehen
E vêm espiar embaixo de suas cobertas
Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich hab euch etwas mitgebracht
eu trouxe para vocês algo comigo
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima
Sie kommen zu euch in der Nacht
Eles vêm até vocês à noite
und stehlen eure kleinen heißen Tränen
e roubam suas cálidas pequenas lágrimas
sie warten bis der Mond erwacht
eles esperam até que a lua desperte
und drücken sie in meine kalten Venen
e se esquivam dentro das minhas veias frias
Nun liebe Kinder gebt fein acht
Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção
ich bin die Stimme aus dem Kissen
eu sou a voz que vem do travesseiro
ich singe bis der Tag erwacht
eu canto até o dia despertar
ein heller Schein am Firmament
uma luz brilhante no firmamento
Mein Herz brennt
Meu coração queima
Segundo informação retirada do Wikipedia, do verbete sobre o single em inglês, a música aborda um narrador que descreve os terrores de seus pesadelos, de modo que os primeiros versos (Nun, liebe Kinder, gebt fein Acht. Ich habe euch etwas mitgebracht") foram retirados de um programa de tv infantil dos anos 1950, chamado Das Sandmännchen (O pequeno Sandman). Em todo episódio, o personagem contava histórias de dormir, o que acabou inspirando uma versão mais obscura, nessa composição do Rammstein.
Capa do single Mein Herz brennt
Essa personagem mascarada que aparece tanto no clipe quanto na figura acima lembra figuras que fazem parte da história espanhola, na qual o chapéu pontiagudo feito de papelão, chamado "capirote", era usado por flagelados, por sentenciados de pena capital e, durante a Inquisição, os acusados eram obrigados a vestir o modelo ao serem postos sob humilhação em público. O capirote também compunha a indumentária dos nazarenos espanhóis durante alguns de seus atos, na época da Páscoa. Mais tarde, esse mesmo acessório apareceria como inspiração ao grupo Ku Klux Klan que, originalmente, teria se baseado no filme Birth of a Nation, de D. W. Griffith, cujos estilistas retiraram a informação, justamente, do capirote.
Cena de Birth of a Nation
Geißlerprozession (1812-1814), ou Procissão dos Flagelados, de Goya
No hubo remedio (1799), de Goya, parte da coleção Los Caprichos
Nessa última imagem, podemos vislumbrar que a roupa do personagem central se parece muito com a qual Till veste no começo do clipe, ao usar a máscara com seus olhos impressos e também na versão em piano da música.
Bem, essa é uma alusão que pode ser feita quanto aos elementos pictóricos e suas referências. Acredito que o uso desse chapéu em figuras obscuras seja uma forma que a cultura pop tem se apropriado para criar seres assustadores, desde os Pyramid Heads de Silent Hill até os personagens das fotografias do artista finlandês Juha Arvid Helminen. Mas mais que isso, acho que o vídeo se preocupa em trazer um aspecto onírico próprio ao pesadelo, ainda que este não seja totalmente surreal e despedaçado, porque acompanhamos narrativa mais ou menos linear que se mostra conectada com um passado, que aparece no começo do vídeo na forma de uma foto de uma classe ou de um grupo de crianças, que também é exposto diante de uma parede, vestindo sacos com caretas desenhadas.
E eu tomo essa referência como a mais forte no vídeo do que qualquer ligação com o nazismo que eventualmente possa aparecer. É o fio da meada da minha análise¹. Penso que os pesadelos da letra tenham sido interpretados como pesadelos da infância de um grupo de pessoas, no caso, interpretado pela banda. Esses personagens teriam crescido num orfanato, no qual eram cuidados por uma mulher, que aparece ora como um ser quase assexuado, ora como jovem e ora como velha.
No primeiro caso, há duas diferentes aparições, uma como ser que vem perturbar à noite (Sie kommen zu euch in der Nacht/Dämonen, Geister, schwarze Feen/sie kriechen aus dem Kellerschacht/und werden unter euer Bettzeug sehen - Eles vêm até vocês à noite/Demônios, espíritos, fadas negras/Eles se arrastam para fora de cavernas subterrâneas/e vêm espiar debaixo de suas cobertas), mas essa mesma figura nua também aparece com uma armação para vestidos antigos, sob a qual esconde ou protege suas crianças, e numa clínica ginecológica - nesses dois últimos exemplos, percebemos que se trata de uma mulher.
A criatura que surge à noite para perturbar e causar pesadelos, o mesmo demônio ou goblin que citei em minha monografia Kunst ist Krieg e que dá nome à banda na qual me foquei, a austríaca Nachtmahr. Este é o nome do ser mitológico germânico que deita no peito da vítima, sufocando-a e dizendo-lhe coisas ao pé do ouvido, de modo a fazê-la ter maus sonhos, como representado em pinturas de Johann Heinrich Füssli
Aqui a figura materna a proteger crianças
Numa das partes do vídeo, essa mesma personagem aparece numa espécie de consultório ginecológico, tentando utilizar um instrumento em sua região pélvica, o que faz parecer algum tipo de método abortivo
Mais tarde, a banda aparece circundando a personagem, numa cena muito parecida com uma fotografia feita por Gottfried Helnwein, depois modificada quando transposta numa pintura em tela
Da primeira vez que vi esse cenário hospitalar, no qual a figura feminina está sob a inspeção de um grupo de homens, os quais são os integrantes da banda, pensei que talvez se tratasse de uma analogia de uma forma de eles atingirem a personagem feminina que povoa suas mentes através de uma terapia ou análise, por exemplo, mas depois vi que era mais uma cena ginecológica, como um parto. De qualquer forma, acho que essa última conclusão não descarta a primeira, porque ainda estamos em âmbito clínico e a metáfora se estenderia à medida que essa personagem é uma mulher responsável por cuidar das crianças apresentadas no clipe e são estas mesmas que fazem seu parto - ou continuam seu procedimento abortivo, portanto, trata-se de uma mulher que não está pronta ou não está na posição de ser mãe, naquele momento, que tem filhos postiços e que não os reconheceria também.
Nesse trecho do vídeo (figuras acima), o personagem de Till confronta a mulher que teria cuidado dele durante sua infância e, por isso, ele a revisita em sua juventude (memória infantil), mas também em sua velhice (memória mais recente e amadurecida). A figura feminina, sempre representada como frágil e pura ao longo do clipe, aparece aqui munida de uma arma, o que a põe na defensiva, como alguém que está pronta para matar, isto é, atacar. Ela protege suas crianças assim como quando as põe debaixo da sua saia, em seu "ninho", mas isso não significa que seus métodos não deixem de ferir esses indivíduos.
Essa cena tanto poderia ser pensada como um método de tortura ou de experimentação com as crianças, sendo revivido no personagem já adulto. Isso é reforçado em outras partes, quando uma garota é visitada durante à noite pela "fada negra" (lembrando a veste negra da figura feminina), então toda em branco, como um fantasma e um demônio que lhe causa pesadelos. Detalhe para o crucifixo no pescoço da personagem.
Ou seja, essas crianças realmente eram submetidas a tratamentos desumanos, ainda que sua "tutora" possua traços angelicais - o que torna o procedimento ainda mais aterrorizante.
E, por isso, as crianças vestem máscaras de expressão enigmática - não sorriem, mas também não choram, não demonstram nada, apenas escondem. Estão presas num porão onde são assombradas pela figura de chapéu pontiagudo, o horror da infância, que está sempre presente para vigiá-las em seu cativeiro - no porão da mente, no inconsciente. Essa representação acaba ganhando os trajes dos condenados da Inquisição espanhola, como na figura de Goya, que inclusive faz parte de uma coleção na qual o artista propunha uma crítica anticlerical. É possível, então, que a presença do crucifixo no pescoço da mulher não seja assim tão gratuita, mas também traga uma mensagem próxima à do pintor espanhol. Portanto, a narrativa se passaria num orfanato dirigido por freiras, mulheres religiosas - o que é uma prática bem comum.
Assim, as crianças crescem ali, trancafiadas, vigiadas por um trauma que permanece em seu coração, "queimando", querendo explodir seja em forma de ódio/violência ou de amor/paixão. É por isso que o personagem de Till, ao mesmo tempo que tenta sufocar a mulher, também a beija com furor. É a pulsão de Eros e de Tânatos, na qual Freud rememora como popularmente chamado de "ambivalência de sentimentos", mas que diz respeito sobre a tênue linha entre amor e ódio².
"O que mais facilmente se observa e é mais acessível à compreensão é o fato da freqüente coexistência, na mesma pessoa, de um intenso amor e de um ódio intenso. A psicanálise acrescenta ainda a tal que ambos os impulsos sentimentais contrapostos tomam, não raro, também a mesma pessoa como objeto. Só após a superação de todos estes “destinos da pulsão” se apresenta o que denominamos o caráter de um homem, o qual, como se sabe, só muito insuficientemente se pode classificar como “bom” ou “mau”" (FREUD, 1915)
Libertados desse ódio, sentimento anímico, como diz Freud (e me faz remeter à figura feminina da anima em contraposição ao masculino do animus segundo Jung, já que o ódio, no vídeo, é concentrado em uma mulher), essas crianças, então homens, podem fugir do porão onde ficaram trancafiados, presos pelo trauma e pelas memórias, tomando a decisão que os daria um caráter, já que eles superaram essa pulsão após "matarem" o seu ódio (enforcando a mulher) e queimando suas memórias, isto é, o orfanato. E tudo isso acontece num processo doloroso, no qual Till tem seu peito perfurado, seu coração arrancado e comido, lembrando a expressão "eat someone's heart", que significa sentir uma amarga angústia ou tristeza.
"As evoluções psíquicas possuem, de fato, uma peculiaridade que não ocorre em nenhum outro processo evolutivo. Quando uma aldeia se torna cidade ou uma criança se faz homem, a aldeia e a criança são absorvidas pela cidade e pelo homem. Só a recordação pode delinear os antigos traços na nova imagem; na realidade, os materiais ou as formas anteriores foram deixados de lado e substituídos por outros. As coisas passam-se de modo diferente numa evolução psíquica" (FREUD, 1915)
Reparem no chapéu pontiagudo e como a figura negra que veste o mesmo acessório continua sendo parte deles mesmos, ou seja, é o próprio trauma. Aqui fogem como crianças, de modo que deveriam ter feito isso muito antes, mas só conseguem fazer na maturidade, ao se tornarem homens e enfrentarem uma evolução psíquica
Outrora amparados pela "tutora", agora carregando as tochas que incendiam seus passados e medos
No final, eles fogem dessas memórias, destruindo-as, mas ainda olham para trás. O que me faz pensar... será que é tão fácil assim superar um medo ou um trauma? Apenas sufocando-o, matando-o? Como a aldeia ao se tornar cidade ou a criança ao se tornar homem? Será que eles não continuariam "presos à barra da saia da mãe", como diz um dito popular? Uma possível resposta vem também de Freud
"Dada a falta de mutações, o estado psíquico anterior pode não se ter manifestado em muitos anos, no entanto, persiste de tal modo que em qualquer momento se pode tornar de novo a forma expressiva das forças anímicas, e até a única, como se todas as evoluções ulteriores se tivessem anulado ou regredido. Esta plasticidade extraordinária das evoluções psíquicas não é, na sua orientação, ilimitada; pode considerar-se como uma faculdade especial de involução – regressão – pois sucede, por vezes, que um estádio evolutivo ulterior e superior, que foi abandonado, já de novo se não pode alcançar. Mas os estados primitivos podem sempre ser reconstituídos; o psíquico primitivo é, no sentido mais pleno, imperecível. As chamadas enfermidades mentais despertarão no leigo a impressão de que a vida mental e psíquica ficou destruída. Na realidade, a destruição concerne apenas a aquisições e a desenvolvimentos ulteriores. A essência da enfermidade mental consiste no retorno a estados anteriores da vida afectiva e da função" (FREUD, 1915)
Acredito que esse retorno seja percebido na versão em piano da música. O vídeo, que conta apenas com a atuação do vocalista Till Lindemann, é extremamente expressivo ao demonstrar a loucura e sofrimento do personagem que, no fim das contas, retorna ao calabouço, ao porão de suas memórias, retrocedendo ao seu estado primitivo de medo e sombras. É nesse momento que sobe uma fumaça, como um espírito libertado, não mais através da superação psíquica, mas talvez pelo método da morte.
Referências
Tradução de Mein Herz brennt: http://letras.mus.br/rammstein/32293/traducao.html
FREUD, Sigmund. Escritos sobre a guerra e a morte. 1915
Mein Herz brennt - Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Mein_Herz_brennt
¹ Esta é uma análise rápida e superficial do clipe, a qual poderia ser ainda mais desenvolvida, mas quis me ater a apenas algumas possibilidades e interpretações pessoais, sem nenhuma pretensão acadêmica ou científica.
² Ainda poderia abordar a questão de Édipo, mas não acredito que isso tenha um peso muito grande neste clipe.
segunda-feira, 5 de março de 2012
Wave Gotik Treffen e uniformes nazistas
A banda portuguesa UNI_FORM lançou no ano passado o clipe da música "Fragile" usando cenas gravadas no Wave Gotik Treffen, festival anual realizado em Leipzig, na Alemanha. O evento dura quatro dias e reúne mais de 150 bandas do gênero gothic metal, EBM, darkwave, industrial, neofolk, experimental, noise, gothic rock, punk e outros.
Fila para pegar as pulseiras de entrada para a 14ª edição da Wave Gotik Treffen, em maio de 2005
A primeira edição do encontro foi realizada em 1987, em Potsdam, porém as leis da República Democrática Alemã indicavam ilegalidade do festival, o que resultou uma baixa visitação (algumas centenas de pessoas). Mas depois de 1992, com a reunificação da Alemanha, o evento passou a acontecer em Leipzig, no clube Eiskeller. A partir daí, a adesão foi aumentando até que, em 2000, foram contabilizados aproximadamente 25 mil visitantes.
Um dos pontos que mais me chama atenção quanto ao Wave Gotik Treffen é a diversidade de subculturas de uma mesma raiz "rocker" ou "dark" que se pode constatar - há quem prefira se referir às variantes da subcultura gótica, mas eu prefiro deixar mais abrangente. Isso é melhor verificado justamente no clipe da UNI_FORM que, aliás, não é uma banda que se equiparia às que tocam no festival. O som dos portugueses me lembrou muito mais a Interpol, ou seja, ela está mais próxima do indie rock.
As cenas foram gravadas na edição da Wave Gotik Treffen de 2011 e, como havia comentado, dá para perceber nesse vídeo a grande diversidade no visual dos visitantes. O que nos convém citar aqui são justamente aqueles que aderem a um estilo mais militar, no caso, muito próximo à estética dos uniformes nazistas.
Este visitante veste um uniforme muito parecido com aquele usado pela Schutzstaffel. Mas não dá para saber se ele está usando a suástica, apesar de haver uma águia no topo do quepe e um círculo onde a ave se sustenta (onde originalmente se situa a suástica)
Réplica de quepe da Allgemeine SS, a mais numerosa vertente da Schutzstaffel
Outro casal que adotou um estilo militar, com fardas bastante parecidas com o estilo nazista, mas adaptadas com itens distintos, como o corset feminino, por exemplo. A moça, inclusive, parece estar usando o mesmo quepe citado acima, enquanto seu acompanhante parece propôr mais a estética da Wehrmacht
Foto da Wehrmacht, tirada em 1942
Outro visitante de uniforme, só que esse mais próximo de algo vestido por policiais ou seguranças, por exemplo. Se alguém souber melhor a referência, por favor, deixe nos comentários
Certo, mas qual seria a utilidade ou o motivo de essas pessoas estarem vestidas assim num evento de música? Quem acompanhou as postagens ou teve oportunidade de conferir minha monografia Kunst ist Krieg, trata-se de uma prática da subcultura rivethead que, segundo WOODS (2007), começou a partir dos anos 1980, com a banda belga Front 242. Com eles, a cena passou a ter um visual mais militarizado, composto por itens como coturno, coletes, quepes, roupas camufladas, jaquetas militares etc. Já AMARAL (2006) vê o rivethead como um desdobramento da subcultura cybergoth - lembrando que alguns puristas do EBM (Electronic Body Music, gênero inaugurado pela Front 242) não concordam que haja uma ligação entre o gótico e a música industrial.
Em seu livro Visões Perigosas: Uma arquegenealogia do cyberpunk, a autora explica que o rivethead segue o mesmo niilismo em relação à tecnologia visto nos cybergoths, influenciados pela lógica do gênero cyberpunk da ficção científica - por isso, a EBM tem uma sonoridade pesada, com batidas "retas" e "secas". Assim como os hackers, tal qual aponta Paul Edwards, em Cyberpunks in cyberspace: the politics of subjetivity in the computer age (1996), os rivetheads também "refletem uma história envolvendo novas formas de guerra, militarismo, um sistema tecnológico invasivo, e o capitalismo global e a sua cultura" (apud AMARAL, 2006, p.154).
Isto é, os rivetheads têm como resposta ao mundo contemporâneo (ou pós-moderno) uma agressividade belicista que se conecta à estética militar. Daí até chegar aos uniformes nazistas é um passo que tem a ver com a estética destes e por seu valor de choque (shock value).
Nos anos 1980, a cena gótica teve seu habitus abalado pela cantora inglesa Siouxsie Sioux (Siouxsie and the Banshees), que trouxe de volta a suástica usada por Sid Vicious (Sex Pistols), mas numa releitura fetichista e sadomasoquista, inspirando uma "geração de mulheres com suas roupas sexualizadas" (ISSITT, 2002, p.9). Mais tarde, nos anos 1990, o fetichismo seguiu dissolvido na subcultura, deslocando o tabu do nazismo acompanhado de sensualidade (ver SONTAG, 1974) para se tornar parte da moda gótica. E isso é claro, tanto pelo que vemos no vídeo da Wave Gotik Treffen quanto pelas fotos que publiquei no ano passado, tiradas na maior festa gótica austríaca, a Overdose.
Debbie Juvenile, Siouxsie Sioux e Steve Severin
Isto é, Siouxsie "começou sua carreira como uma decana gótica na cena da Sex Pistols, ajudou a popularizar uma estética caracterizada por uma palidez mórbida, pela maquiagem escura, a decadência da era Weimar e o Nazi chic" (GOODLAD e BIBBY, 2007, p.1). Ou seja, a cantora combinou tanto os elementos malignos quanto os eróticos encontrados na subcultura gótica ou na cena sadomasoquista (SONTAG, 1974). Afinal, a subcultura gótica é caracterizada pelo afeto e admiração pela obscuridade, seja ela focada na era medieval ou em tempos mais recentes - vampiros, bruxas e demônios são alguns dos seres fantásticos e malignos que permeiam o imaginário gótico. Siouxsie só reforçou essa tendência ao vestir uma faixa vermelha com a suástica, transformando um símbolo preenchido de tabus (porque justificadamente causa revolta e repulsa), que é uma das representações contemporâneas do mal, e o inseriu num contexto de beleza e até de ironia ao se posicionar ingenuamente, como na foto acima.
Duas cenas em que Siouxsie evoca a sensualidade e erotismo unidos ao militarismo, sendo que na segunda foto (à direita) ela usa a suástica e na primeira (à esquerda) ela faz remitência ao filme Der Nachtportier (1974), de Liliana Cavani
Com o passar do tempo, no entanto, o que outrora Siouxsie usou como protesto ou ironia perdeu, em parte, a sua função para se transformar num item cosmético e fashion. Assim como AMARAL (2006) explica, os rivetheads e os góticos fazem parte de uma geração de subculturas pós-punk, ou seja, poderiam ser classificadas como pós-subculturas, como explica David Muggleton e Rupert Weinzierl em The post-subcultures reader (2004), porque ambas estão muito mais conectadas a uma identidade e a um estilo do que a uma ideologia e resistência que parecia haver nos anos 1970 e 1980.
"Todas as subculturas surgidas depois do punk (...) possuem essa relação de identificação estética demarcadas de maneira muito intensa, enquanto as questões de cunho político/ideológico (quando existem) e de resistência e choque a uma cultura dominante/mainstream parecem estar relegadas a um segundo plano" (AMARAL, 2006, p.151).
Então, quando vemos tais pessoas vestidas em fardas em eventos góticos, tal como a Wave Gotik Treffen, é possível pensar que elas estejam apenas reforçando a qualidade estética de tal indumentária e não a carga simbólica que esta carrega. Trata-se de um costume pós-moderno, o de esvaziamento dos símbolos, sem que, no entanto, isto indique uma alienação histórica e cultural por parte dos indivíduos. Apesar de a prática indubitavelmente ser perigosa aos olhos desavisados, subculturas sempre estiveram no limiar do estranhamento e da marginalização - daí subcultura, não por inferioridade, mas por se pôr fora do mainstream.
Porém, não deixa de ser uma questão a ser debatida e criticada: como se dá esse esvaziamento simbólico em prol da estética pura? Como é possível alguém vestir o uniforme daqueles que mataram milhares há menos de 60 anos? O fato é que a suástica e outros símbolos referentes ao regime nazista, como as runas, são proibidos por lei em países como a Alemanha e a Áustria, mesmo quando usados em protesto. Mas entende-se que aí há, de certa forma, um uso cosmético das fardas e dos símbolos, como se as pessoas se apoderassem do poder oficialmente segurado por outros, transferindo-os para si e assim ganhando uma persona de autoridade e reconhecimento (HANLEY, 2004).
Referências bibliográficas
AMARAL, Adriana (2006). Visões Perigosas: Uma arquegenealogia do cyberpunk. Porto Alegre: Editora Sulina
GOODLAD, Lauren M. E; BIBBY, Michael (2007). Goth: Undead Subculture. Duke University Press: Durham
HANLEY, Jason J (2004). "The Land of Rape and Honey": The Use of World War II Propaganda in the Music Videos of Ministry and Laibach. American Music, vol. 22, no. 1 (Spring), pp.158-175
ISSITT, Micah (2011). Goths: A Guide to an American Subculture. ABC-CLIO
SONTAG, Susan (1974). Fascinating Fascism.
WOODS, Bret D (2007). Industrial Music for Industrial People: The History and Development of an Underground Genre. The Florida State University, College of Music
PS: Obrigada pela dica de post, Cid!
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