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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Os discursos de Hitler e a culpa coletiva

Eu vi esse post do Update or Die sobre as fotos que Hitler tirava enquanto ensaiava seus discursos, a gestualidade que ele tentava dominar para então reproduzir mais tarde, quando finalmente chegasse ao poder. O fotógrafo Heinrich Hoffman era responsável por fazer as imagens do austríaco e, no final, era encarregado de se desfazer dos negativos das imagens que demonstravam o pior desempenho do futuro ditador. Mas algumas sobreviveram nos arquivos e foram publicadas em seu livro de memórias em 1955.


O autor do texto se pergunta como alguém conseguiu convencer uma nação com idéias tão absurdas como uma raça superior e outras propostas tão surreais. É realmente estranho para nós, latino-americanos nascidos no fim do século XX e vivendo no século XXI entender isso. Eu mesma, como estudante desse tema e totalmente fora da área de história, tenho extrema dificuldade pra entender (e é por isso mesmo que estudo) e é por estarmos nesse contexto mesmo que surgem outras perguntas que, quem esteve lá, não pensou.

Por exemplo, quando estive em maio em Viena, entrevistando o Gottfried Helnwein, perguntei se em algum momento o fato de ele sempre pintar e fotografar crianças loiras, brancas e de olhos claros e abordar a temática do nazismo não pudesse trazer à tona a idéia paradoxal de que ele estivesse também, por causa dessa escolha estética, abordando o arianismo. E não. Ele me disse que entendeu a pergunta, principalmente porque sou de um país de muitas etnias, mas a Áustria (e também a Alemanha) é, ou pelo menos era à sua época, um país predominantemente branco. Disse-me que nunca havia visto um negro, pessoalmente, quando era criança - isso era algo que se via na televisão. Ou seja, enquanto ele me contava isso, na maior naturalidade, soava quase absurdo: meu Deus! Como assim?! Porque aqui no Brasil é tão normal, há tanto tempo temos uma mistura étnica por aqui. Comentou que se ele fosse chinês, provavelmente fotografaria e pintaria apenas crianças chinesas e assim por diante, como também se houvesse a oportunidade de trabalhar com crianças de outras etnias antes, assim como em 2012 pôde fotografar crianças mexicanas, teria feito.

O que quero dizer com isso? Não podemos pensar como brasileiros o que aconteceu com alemães, austríacos e demais europeus. Dificilmente conseguiremos entender o que realmente foi o nazismo sem tê-lo vivido, ainda que dediquemos uma vida de pesquisa e leitura a isso, mas acho interessante, por exemplo, o que li sobre a questão da culpa coletiva em Jung. Em 1945, o psiquiatra suíço escreveu um artigo chamado Depois da catástrofe no qual ele analisou o sentimento que deu o nome de "culpa coletiva", pondo-o como conceito psicológico. Nesse texto, ele explica que a culpa de um ponto de vista jurídico só pode ser circunscrita a quem violou um direito, enquanto que como fenômeno psíquico, contudo, "ela se estende para além dos limites espaciais e humanos. Um bosque, uma casa, uma família, e até mesmo uma aldeia em que tenha ocorrido um crime sente internamente a culpa psíquica além de ser acusada externamente" (JUNG, 1988, p.18).

E é engraçado que nesse artigo Jung diz que como suíço, no entanto, ele não se vê como cúmplice do nazismo. Diz que os Europeus se punham assim, jogando a culpa das barbaridades da guerra para os alemães apenas, ainda que houvesse um campo de concentração a duzentos quilômetros dali. No entanto, como ele próprio exemplifica, se um hindu que viesse da Ásia e conversasse com ele sobre o assunto, o teria como simplesmente um europeu e as distâncias entre os continentes tornariam os duzentos quilômetros entre a Suíça e Auschwitz irrelevantes.

O mundo discrimina a Europa porque, em última instância, foi em seu solo que cresceram os campos de concentração. A Europa, por sua vez, segrega a Alemanha, apontando as nuvens de culpa que recobrem esse país e o seu povo, pois foi na Alemanha e pelos alemães que tudo isso aconteceu. Nenhum alemão pode negar, da mesma forma que nenhum europeu ou cristão, que o crime mais terrível de todos os tempos foi cometido em sua casa. A Igreja cristã pode cobrir com cinzas a cabeça e rasgar as vestes pela culpa de seus filhos, mas as sombras dessa culpa recaíram sobre eles e sobre toda a Europa, a mãe dos monstros. Da mesma maneira que a Europa precisa ajustar contas com o mundo, a Alemanha deve fazê-lo em relação à Europa. (...) A culpa coletiva psicológica é uma fatalidade trágica; atinge a todos, justos ou injustos, que, de alguma maneira, se encontravam nas proximidades do crime (JUNG, 1988, p.19).

Apesar de Jung acreditar que uma pessoa razoável seja capaz de distinguir entre o sentimento de culpa da verdadeira culpa, isto é, quando o indivíduo realmente cometeu algum delito, o psiquiatra é um tanto pessimista quanto à situação. Isto porque há muita irracionalidade envolvida no processo e quando diz que a culpa coletiva é um preconceito ou uma condenação injusta, Jung não só concorda como também diz que esta é, justamente, a sua essência irracional: "ela jamais se pergunta pelo justo e o injusto, ela é a nuvem sinistra que levanta no lugar de um crime inexpiado" (JUNG, 1988, p.20). Como fenômeno psíquico, a culpa coletiva não condena aqueles que atinge, mas constata um fato.

Para exemplificar uma situação dessas, Jung supõe um homem que vive numa sociedade em que um crime é cometido e acaba suscitando sentimentos apaixonados e interessados por parte do público. Essas emoções demonstram que "praticamente todo mundo, desde que não seja insensível ou apático de forma anormal, é excitado pelo crime. Todos vibram conjuntamente, todos se sentem dentro do crime, tentam compreendê-lo e esclarecê-lo... Algo se acende, o fogo do mal que flameja no crime" (JUNG, 1988, p.21). Citando Platão, o psicanalista suíço lembra que a visão do feio provoca o feio na alma e a indignação diante do crimoso provoca a reação violenta, mas ao mesmo tempo apaixonante, na qual o espectador tenta punir o infrator já dentro da sua própria alma. E, assim, "o assassinato acontece, em parte, dentro de cada um e todos, em parte, o cometeram. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção" (Idem).

Ou seja, não precisamos matar alguém com as mãos para poder, em nossas almas (ou mentes), repetir o ato. É a sedução pelo mal, a emergência do Vampyroteuthis sob a forma de romantismo do tipo nazismo, sob a forma de Wotan, de sombra.

Disposições morais fortes, porém, são infelizmente raras. Quando os crimes aumentam, a indignação predomina e o mal se converte em moda. De santo, louco e criminoso todos temos 'estatisticamente' um pouco. Graças à essa condição humana universal existe, em todas as partes, uma sugestibilidade correspondente ou propensão. A nossa época, isto é, os últimos cinquenta anos, preparou o caminho para o crime. Será que, por exemplo, o grande interesse pelos romances policiais não nos parece suspeito? (JUNG, 1988, p.21).

São só alguns pensamentos e algumas amostrinhas do que tenho descoberto durante minhas pesquisas do mestrado. :) Eu já tinha dado uma amostrinha dessas idéias neste post com uma citação dessa obra do Jung, mas aqui desenvolvi um pouco mais, linkando com outras postagens. Espero que tenham gostado.

Referências

JUNG, Carl Gustav. Aspectos do Drama Contemporâneo. Petrópolis: Editora Vozes, 1988

PS: Sobre a teatralidade de Hitler, a forma como ele fazia o discurso e como as pessoas entravam nisso de um ponto de vista oratório, sem entrar no mérito da oratória mesmo e da publicidade, eu acredito que isso tenha muito a ver com a questão do ritual. Agora eu não tenho exatamente referências suficientes para escrever um bom post sobre isso, apesar de ter estudado um pouquinho sobre isso durante a graduação, com ajuda do meu orientador Prof. Dr. José Eugenio de Oliveira Menezes. Conversei justamente sobre isso com uns amigos no fim de semana. Se tiverem interesse sobre isso, posso dar uma lida em algum material e fazer um novo post futuramente, só me deixem saber mesmo.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Gottfried Helnwein - Der Ring des Nibelungen

Gottfried Helnwein foi responsável pelo palco, figurino e maquiagem da ópera Der Ring des Nibelungen (O Anel dos Nibelungos), ciclo de quatro óperas épicas de Richard Wagner. São adaptaçõs dos personagens da mitologia nórdica e do Nibelungenlied, a Canção dos Nibelungos, um poema épico escrito na Idade Média, por volta de 1200.

Wagner escreveu o libreto e a música de 1848 a 1874, o que totalizam vinte e seis anos, porém ele não se dedicou esse tempo todo a apenas essa obra. As óperas que compõem o ciclo são, em ordem cronológica do enredo, Das Rheingold (O Ouro do Reno), Die Walküre (A Valquíria), Siegfried e Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses). Apesar de serem apresentadas individualmente, a intenção do autor era que fossem apresentadas em série.



Com coreografia de Johann Kresnik, a primeira parte de Der Ring des Nibelungen contou com Rheingold e Walküre e foi apresentada na Bonn Opera, na Alemanha, em 2006.












terça-feira, 16 de julho de 2013

Fascínio pelo mal, em Jung

Em 1945, Jung escreveu isso sobre a culpa coletiva sentida pelos alemães e pelos europeus por conta dos crimes cometidos pelo nazismo e durante a Segunda Guerra Mundial:

"A sensação que todo crime provoca, o interesse apaixonado pela perseguição e julgamento do criminoso, etc., demonstram que praticamente todo mundo, desde que não seja insensível ou apático de forma anormal, é excitado pelo crime. Todos vibram conjuntamente, todos se sentem dentro do crime, tentam compreendê-lo e esclarecê-lo... Algo se acende, o fogo do mal que flameja no crime. Platão já sabia que a visão do feio provoca o feio na alma. A indignação e a exigência de punição se levantam contra o assassino e isso tanto mais violenta, apaixonada e odiosamente quanto mais ferver a chispa do mal dentro da própria alma. É um fato inegável que o mal alheio rapidamente se transforma no próprio mal, na medida em que acende o mal da própria alma. O assassinato acontece, em parte, dentro de cada um e todos, em parte, o cometeram. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção. Com isso, estamos irremediavelmente imiscuídos na impureza do mal, qualquer que seja o uso que dele fizermos. Nossa indignação moral cresce em virulência e desejo de vingança quanto mais forte arder em nós a chama do mal. Disso ninguém pode escapar, pois somos todos humanos e pertencemos igualmente à comunidade dos homens. Assim, todo crime desencadeia num recanto de nossa mente múltipla e variada uma satisfação secreta que, por sua vez, em caso de disposição moral favorável, produz uma reação oposta nos compartimentos vizinhos. Disposições morais fortes, porém, são infelizmente raras. Quando os crimes aumentam, a indignação predomina e o mal se converte em moda. De santo, louco e criminoso todos temos 'estatisticamente' um pouco. Graças a essa condição humana universal existe, em todas as partes, uma sugestibilidade correspondente ou propensão. A nossa época, isto é, os últimos cinquenta anos, preparou o caminho para o crime. Será que, por exemplo, o grande interesse pelos romances policiais não nos parece suspeito?" 
(Carl G. Jung, Depois da catástrofe, 1945)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Fotos coloridas do Terceiro Reich são encontradas em arquivos da Life

Artigo publicado na Motherboard


O partido de Hitler é conhecido pelo grande uso de simbolismos em suas campanhas. Hoje, a utilização de bandeiras enormes, águias gigantes e públicos massivos e alinhados tem merecidamente deixado uma impressão sinistra e tem sido efetivamente copiada em ficções que emulam estados totalitaristas brutais. Ainda que muitos de nós saibamos quão poderosas a propaganda e a máquina imagética de Hitler foram, vê-las em cores nessa maravilhosa série fotográfica da revista Life é como um soco no estômago.


Recentemente, a revista Life tem resgatado de seus arquivos ótimas fotografias antigas e que, às vezes, sequer haviam sido vistas. (O tributo ao fotógrafo de guerra Larry Burrows é particularmente poderoso). Mas a Life se superou com a série de Hugo Jaeger, que foi um dos fotógrafos pessoais de Hitler.


Ver cidades inteiras adornadas por bandeiras com a suástica é assustador. Mas vê-las em cores é ver quão chocantes são essas bandeiras vermelhas, no cenário. É como uma maré vermelha inundando cada canto de uma cidade.

É óbvio que essa era a impressão que Hitler e sua máquina de propaganda queriam; que o partido nazista era uma força imparável e a única opção era se juntar a ele.


O poder de Hitler tem parte de sua origem no simples culto das estéticas com as quais ele compactuou. Ao se deparar com tal incrível e eficiente máquina, a qual parecia pintar tudo de vermelho, por onde quer que passasse, era difícil alguém divergir. E conforme Hitler foi ganhando poder, isso ficou cada vez mais forte.


Mas imagens sozinhas, ainda que poderosas, não podem sustentar um movimento político sozinhas. Enquanto o partido nazista fazia sucesso essencialmente por dizer "Veja, todos estão conosco, junte-se a nós ou será deixado para trás (ou assassinado)", isso não era 100% bem sucedido. Dissidentes, tanto nacional quanto internacionalmente, continuaram existindo. Enquanto Hitler retratava seu "Reich de Mil Anos" como invencível e abrangente, ao mesmo tempo em que cometia indizíveis atrocidades durante seu reinado, os Aliados mantiveram esse legado por apenas dez anos.


Tal grosseira simplificação é uma parte básica de qualquer livro de história do século XX, mas as fotos em preto e branco às quais nós estamos acostumados a acompanhar simplesmente não retratam a cena nem perto daquilo que elas parecem, em cores. Apesar do tema, as fotos de Jaeger são tecnicamente impressionantes. O filme 35mm Kodachrome foi lançado em 1936 e foi apenas depois disso que a fotografia em cores foi lentamente chegando às mãos dos profissionais.

É até mesmo um exemplo incrível de como desenvolvimentos técnicos podem ser incríveis, mesmo no campo das artes; poucos anos depois do advento comercial e tecnológico da filmagem em cores, ela passou a ser usada para criar imagens que evocassem ainda mais emoções do que as fotografias em preto e branco, assim como é até hoje. Nesse sentido, as habilidades de Jaeger com a nova mídia é notável se nos basearmos em seu portfolio, apesar de este ter sido infelizmente e em boa parte utilizado para documentar a vida do mais notório vilão da história. Mas isso é o que é mais fascinante dessas fotos, especialmente do ponto de vista da inovação. Eu duvido que químicos especialistas em filmes fotográficos que adivinharam como replicar cores esperaram que elas seriam para propaganda tão rapidamente.


Mas tão chocante quanto sejam essas imagens são em cortes, é importante lembrar que enquanto a máquina de propaganda hitlerista era poderosa, ela não era suficiente. Assim como o editor da Life.com Ben Cosgrove escreve em seu artigo que acompanha as fotografias, o qual você deve ler, "nunca é demais lembrar é preciso mais do que emblemas - não importa quão autoritários eles possam ser, ou quão transcendentais eles podem parecer - para transformar um movimento em uma força política, social e militar estável.


E essa é a verdade. Há um motivo pelo qual o partido nazista usou tão fortemente os simbolismos que têm sido objeto de caricaturas em filmes como 1984 e Death Race 2000: não é algo simples e politicamente unidimensional, mas também historicamente. O conceito de cobrir todo metro quadrado de espaço público com bandeiras representando o Partido, qualquer que este seja, é um truque antigo, e um dos quais nós quase automaticamente associamos a governos totalitaristas.

É porque pensamento livre requere estética livre, se empurrarem despoticamente imagens em sua face, isso irá trapacear a sua mente, e alguns irão sempre contrariar. Se olhar as fotos digitalizadas de algo maligno morto 80 anos atrás, em sua tela, fez suas batidas cardíacas aumentarem, então você entende totalmente.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Ein Gleiches (Blixa Bargeld, Goethe e Operação Valquíria)


Estava vendo outra vez esse vídeo e resolvi procurar a letra, então que descubro que, na verdade, Blixa Bargeld (Einstürzende Neubauten) está interpretando alguns dos poemas mais famosos de Johann Wolfgang von Goethe, o segundo que faz parte da obra Wandrers Nachtlied (Canção Noturna do Andarilho), composta por duas poesias ou canções, a primeira (Der du von dem Himmel bist/Tu que está no céu) escrita em 1776 e a última (Ein Gleiches/Über allen Gipfeln/Um outro/Acima de todos os cumes) em 1780.

Wandrers Nachtlied I - Der du von dem Himmel bist


Der du von dem Himmel bist,                             Thou that from the heavens art,                      Tu que estás no céu,
Alles Leid und Schmerzen stillest,                   Every pain and sorrow stillest,                     Todo pesar e dor acalma,
Den, der doppelt elend ist,                      And the doubly wretched heart               E aquele que é duplamente infeliz,
Doppelt mit Erquickung füllest.           Doubly with refreshment fillest,        Duplamente com frescor se preenche,
Ach, ich bin des Treibens müde!                I am weary with contending!                Ah, eu estou cansado do tumulto!
Was soll all der Schmerz und Lust?                  Why this rapture and unrest?                 O que é toda essa dor e êxtase?
Süsser Friede,                                                                Peace descending                                     Doce paz,
Komm, ach! Komm in meiner Brust.            Come ah, come into my breast!        Ah, venha! Venha para meu peito.


Wandrers Nachtlied II - Ein gleiches


Über allen Gipfeln                                           Above all summits                                     Acima de todos os cumes
Ist Ruh,                                                                  it is calm.                                                       é calmo,
In allen Wipfeln                                              In all the tree-tops                                       Em todo topo de árvore
Spürest du                                                           you feel                                                           você sente
Kaum einen Hauch;                                       scarcely a breath;                                     Quase nenhum sopro;
Die Vögelein schweigen im Walde.   The birds in the forest are silent,       Os pássaros estão quietos na floresta.
Warte nur, balde                                           just wait, soon                                            Apenas espere, logo
Ruhest du auch.                                            you will rest as well!                              você também irá descansar!



É dito que Goethe escreveu essas poesias pensando num cenário de silêncio em contraposição à inquietude do homem que, no entanto, espera pelo sono, pela morte e pela paz.

O segundo poema foi musicalizado por John Ottman no filme Valkyrie (2008) de Bryan Singers - Operação Valquíria, na versão brasileira. A canção foi inserida no longa como um lamento à abortada tentativa de assassinato de Adolf Hitler em 20 de julho de 1944, que é um dos assuntos abordados na obra cinematográfica.

PS: A tradução em português foi feita baseada na versão em inglês, de Henry Wadsworth Longfellow, mais a interpretação do original, em alemão.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Carnaval nazista na Bélgica é condenado pela UNESCO


As celebrações de carnaval realizadas na cidade belga de Aalst são consideradas pelas Nações Unidas como um patrimônio mundial, mas nesse ano ocorreu um evento particular que fez a UNESCO se pronunciar contra. Um grupo intitulado SS-VA resolveu fazer paródia do N-VA (New Flemish Alliance), um partido de centro-direita que defende a nacionalidade flamenga no país, ao se vestir com uniformes nazistas que remetiam àqueles usados pela Schutzstaffel (SS). Dezenas de milhares de espectadores conferiram a performance, que também fez referências às câmaras de gás utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial. Para isso, eles contaram com um homem vestido de judeu e um carro alegórico com uma caixa representando vagões de deportação.

A diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova, diz estar "extremamente chocada por tal ato inaceitável, que é um insulto aos seis milhões de judeus que foram mortos no Holocausto". Já o prefeito da cidade, Christoph D'Haese, que é membro do partido N-VA, assume ter, semanas antes, alertado o grupo SS-VA que a proposta de desfile era pouco carnavalesca. "Nós não queremos que ninguém se ofenda, mas é preciso ver no contexto certo. O que faz parte do carnaval deve ser limitado aos três dias de comemoração. Nós não proibimos nada e o carnaval é um dia que dá carta branca à liberdade de expressão", afirma D'Haese, que também informa que de 3.500 participantes dos desfiles, apenas seis fizeram parte do ato da SS-VA. Apesar de estar arrependido diante dos acontecimentos, o prefeito explica que é o Governo Flamengo que deve responder às manifestações da UNESCO.


O grupo carnavalesco SS-VA tem como um de seus participantes um advogado da cidade de Ghent, que explica que sua intenção era zombar a direita representada pelos apoiadores do partido N-VA. Michel Keymeulen disse à Radio 2 que, em Aalst, todos riram da performance. "Eu tenho certeza que a diretora geral da UNESCO não estava em Aalst. Ela está respondendo aquilo que foi escrito por pessoas que ficaram descontentes com o que aconteceu ou que quiseram tirar o evento do contexto".


Irina ainda disse que as cenas representadas pelo grupo SS-VA se opõem aos valores do carnaval de Aalst e vão contra os esforços pela compreensão, tolerância e paz entre os indivíduos. A diretora-geral da UNESCO acredita que o Holocausto não deve ser trivializado por conta da "situação política local ou para incitar o ódio". "Apesar de o carnaval apoiar a liberdade de expressão e a sátira, isso não é motivo para justificar estereótipos anti-semitas", critica Irina. Outro argumento que vai contra a manifestação é de que o "desfile nazista" vai contra o artigo 2 da Convenção da UNESCO, que pede pelo respeito entre comunidades. "Isso comprova o extremamente preocupante menosprezo diante de temas como o Holocausto e as deportações, ainda mais no coração do continente onde essa tragédia aconteceu", inclui Irina.



É dito que essa paródia faz crítica às políticas do líder separatista flamengo Bart de Wever. Desde sua vitória nas eleições municipais, em outubro do ano passado, de Wever tem reforçado a nacionalidade flamenga na cidade ao, por exemplo, remover retratos do casal real belga da câmara municipal. Segundo Jacques Jacquemin, líder do SS-VA, a intenção era demonstrar como a política de "flamenguização" em Aalst levou o N-VA a uma situação "cada vez mais cômica". 

Na montagem com três oficiais da SS, o personagem ao centro recebe o rosto do prefeito Christoph D'Haese enquanto o outro, à sua esquerda, tem a face do líder separatista flamengo Bart de Wever




Agradecimentos ao meu informante e colega belga Frederic pela notícia!

Fontes:

Burgemeester Aalst betreurt heisa over 'nazicarnaval' - DMorgen.be <http://www.demorgen.be/dm/nl/989/Binnenland/article/detail/1578935/2013/02/13/Voorzitster-UNESCO-furieus-op-nazicarnaval-in-Aalst.dhtml>
The Flemish nationalist De Wever in SS, “star” of Carnival in Flanders - Diplomat Tittle <http://www.diplomattitle.com/the-flemish-nationalist-de-wever-in-ss-star-of-carnival-in-flanders/>
UNESCO Chair reacts furiously to "Nazi carnival" in Aalst - Joods Actueel - <http://joodsactueel.be/2013/02/13/unesco-voorzitter-furies-op-nazicarnaval-in-aalst/>
UNESCO official slams ‘anti-Semitic display’ at agency’s Belgian carnival - The Global News Service of the Jewish People <http://www.jta.org/news/article/2013/02/13/3119486/unesco-indignant-over-anti-semitic-display-in-belgian-carnival>

sábado, 15 de setembro de 2012

Os ideomitos - Edgar Morin



No livro "O Método 4, as Idéias - Habitat, vida, costumes, organização", Edgar Morin, entre outras coisas, contextualiza o termo "noosfera" e apresenta um posicionamento sobre como os mitos continuam presentes na atualidade, ainda que tentemos destruí-los com discursos que hasteiam a bandeira do racionalismo, do cientificismo e positivismo. Um exemplo vulgar e de rápida assimilação seriam os movimentos pró-ateísmo que muitos podem ter acompanhado nas redes sociais, recentemente. Menciono especificamente aqueles que põem o discurso mitológico e religioso em detrimento ao científico, anulando-o em favor de uma idéia de razão e verdade a qual Morin, no trecho abaixo, compara a uma deidade.

Mas, acima de tudo, para fazer paralelo com as temáticas do blog e com a minha pesquisa, acredito que esse texto ponha em voga o elemento mitológico/subjetivo/irracional que se encontra nas ideologias ou particularmente no fenômeno do nazismo. Já tratei disso no blog com uma tradução do texto de Jung sobre Wotan e o nazismo, bem como ao publicar o trabalho de um estudante de psicologia sobre o fracasso da razão durante tal período histórico, ou mesmo ao comentar o livro Vampyroteuthis infernalis, de Vilém Flusser e traduzir uma resenha de A Terrible Love of War, de James Hillman. Deixo então, para leitura e desfrute, esse subtítulo "Os ideomitos" de Edgar Morin:

Os ideomitos



Acreditou-se no século XIX e no começo do século XX que a promoção das ideias laicas correspondia à evolução necessária e progressiva do mito à razão, da religião à ciência; o desaparecimento gradual dos mitos bioantropomorfos e o estreitamento da área religiosa deviam completar-se, o que corresponderia ao triunfo das verdades positivas, racionais e científicas.

Ora essa concepção, que Auguste Comte formulou como lei evolutiva, era um mito e, de resto, Comte teve a loucura genial de coroar a era positiva com uma nova religião, concreta e universal, na qual a adorada Clotilde de Vaux encarnava a Humanidade-Mátria.

De maneira mais convincente, Max Weber concebera o desaparecimento gradual dos mitos, religiões, ritos, tradições, como um processo de secularização em proveito das ideologias, da ética e das crenças subjetivas. É interessante salientar que dois ramos divergentes saíram dessa perspectiva;  por um lado, o da interiorização, da subjetivização, da estetização. Efetivamente, podemos constatar que os gênios, demônios, espectros, que povoavam a natureza, foram despachados para uma noosfera estética, tornando-se heróis de romances ou stars de cinema, ou migraram para os interiores psíquicos, tomando a forma fluida das pulsões e sentimentos. Podemos pensar que esses desenvolvimentos estéticos e subjetivos estão dialogicamente ligados aos desenvolvimentos antinômicos e concomitantes do pensamento racional-empírico-lógico e dos sistemas abstratos de ideias, teorias científicas, doutrinas, ideologias.

Pudemos nos questionar sobre as ressurreições dos mitos no campo estético das novas artes (romance popular, cinema, televisão, esporte) de massa (Morin, 1957, 1962). Pudemos igualmente nos surpreender com a resistência das grandes religiões e mesmo com as suas contra-ofensivas vitoriosas nas terras desoladas do desencantamento e do niilismo. Mas é necessário, sobretudo, ver o que Max Weber não viu: a reinvasão do mito e mesmo da religião nos sistemas de ideias aparentemente racionais.
Georges Bataille (1972, PP. 393-394), por seu lado, bem observou a existência no mundo moderno de uma “avidez de mitos”. Acrescentemos: novos mitos fizeram ninho no próprio coração das ideias abstratas. Em outros termos: as estruturas arcaicas do mito apropriaram-se das estruturas evoluídas da ideia.

O Wittgenstein dos manuscritos de 1931 descobrira, durante uma longa meditação sobre O Ramo de ouro, de Frazer, não somente “que a eliminação da magia tem... o caráter da magia”, mas também que a metafísica podia ser considerada “como uma espécie de magia”. Freud perguntava-se, mais ou menos na época (1933), se a própria teroia científica não era mitológica.

Essa questão merece ser colocada. É certo que as teorias científicas, nos seus aspectos abertos e profanos, situam-se nas antípodas do mito. Mas o seu núcleo comporta uma zona cega onde pode instalar-se um fermento que transforma a ideia, tornada soberana, em mito; assim, a ideia pitagórica da realeza do Número torna-se mito, como ocorre com a ideia galileana, newtoniana, laplaciana, da ordem matemática do mundo...
Toda passagem a ser de um sistema de ideias comporta um potencial mitologizante. Toda idealização/racionalização doutrinária tende a autotranscendentalizar o sistema. A partir daí, o mito pode instalar-se no núcleo do sistema abstrato e divinizar as ideias mestras. Assim, opera-se a mitologização da ideia abstrata. As teorias científicas evitam a doutrinização, mas o seu núcleo permite a mitificação. Os themata são ideias mestras obsessivas que tendem a impregnar-se de força mítica. Assim, embora permanecendo empírico-racionais, as teorias científicas podem absorver mito nos seus núcleos.

O mito introduz-se clandestinamente, como um vírus que se introduzisse no DNA do hóspede e nele se integrasse, suscitando desde então uma atividade propriamente mitológica mais invisível. Melhor ainda: o mito invadiu o que lhe parecia mais hostil e que deveria tê-lo liquidado.

Se o mito pode introduzir-se no núcleo das teorias científicas sem, no entanto, controlá-lo totalmente, pode invadir plenamente as doutrinas e as ideologias. Enquanto as teorias científicas permanecem profanas por natureza, a despeito da tendência própria a todo sistema de ideias a autotranscendentalizar, as doutrinas auto-sacralizam-se e auto-idolatram-se. O conceito fundamental torna-se soberano do universo. A doutrina exige a veneração dos seus adeptos, que devem obedecer-lhe literalmente, citá-la ritualmente e  utilizar a conserva fiada litânica de um quase culto. Assim, a transcendentalização e a deificação características da mitologia e da religião entram sub-repticiamente, mas com profundidade, no mundo laico da doutrina.

Acontece o mesmo com a ideologia. Como todo sistema de ideias, a ideologia comporta um núcleo que determina a organização dos conceitos e a natureza de sua visão de mundo. Esse núcleo não se limita a realizar a fusão (ou a confusão) entre paradigmas/axiomas e valores, mas contém, enterrado em si, uma substância mítica confundida com a sua própria substância doutrinal. Os valores adquirem uma vida superior que os torna míticos: a Justiça, a Ordem, a Liberdade, a Igualdade, o Amor, a Verdade, o Homem, embora permanecendo valores, tornam-se mitos e divinizam-se. Assim, o homem, fonte de direito e de fraternidade na filosofia humanista, acha-se, de qualquer maneira, divinizado na ideologia humanista,  pela qual alcança uma dignidade sobrenatural que o destina à conquista e ao controle da Natureza. A ideia do homem e o mito do homem contaminam-se reciprocamente, e o mito tendem a apossar-se da ideia. Diferentemente do mito tradicional, o mito moderno é invisível sob a abstração ideal e sob a lógica do sistema. Torna-se tanto mais invisível quanto mais usa a máscara da ciência “desmitificadora”. Assim, o mito da salvação terrestre tomou a forma do “materialismo científico”.

Hoje, no nosso mundo ocidental, só de maneira estética, sob a forma romanesca ou cinematográfica, consumimos os mitos do tipo arcaico, antigo ou exótico, as narrativas bioantropomorfas. Os nossos mitos, profundos e tirânicos, encontram-se embutidos em cápsulas de ideias abstratas, inclusive na ideia desmitificadora da Razão. Virulentos, fazem parte das nossas ideologias. Há mito tipicamente moderno quando há, nas ideias fundamentais de uma ideologia, coagulação de fortes cargas de verdade cognitiva e de verdade ética (valores) e quando essas ideias se tornam autoritárias, dominadoras, sacralizadas, soberanas. Assim, a ideologia contém, subterraneamente, no seu coração as estruturas do pensamento p.181
Simbólico-mágico-mítico, escondidas sob as do pensamento lógico-empírico-racional.

A virulência de uma ideologia pode tornar-se extrema. A ideologia, vale lembrar, sempre teve uma força motora derivada da sua forte carga mitológica e do seu caráter político, isto é, de práxis, na cidade. As ideologias apossam-se e subjugam então os humanos, como faziam os deuses. É certo que os homens obtêm, em troca, satisfações psíquicas; possuem a verdade que os possui, controlam o universo através de uma ideologia, gozam, como em verdadeiros coitos psicológicos, com a repetição dos seus themata obsessivos, os quais fornecem à doutrina o seu erotismo enfeitiçador. Logo, os humanos chegam a viver e a morrer pela ideia.

Aparentemente, os Tempos modernos caracterizam-se pela dominação dos sistemas abstratos de ideias ou ideologias e pelo retrocesso dos sistemas mitológicos e religiosos. Mas a grande e real laicização da noosfera não deve mascarar a invasão dos mitos no seu próprio interior. Assim, vimos a razão, bifurcando da racionalidade para a racionalização, tornar-se ídolo e mesmo deusa. A razão só existe como atividade crítica e autocrítica, mas tornou-se uma entidade em si, arrogando-se a soberania, a providencialidade e, no limite, a divindade. Do mesmo modo, a ideologia científica constituiu-se como sistema ao mesmo tempo racionalizador e idealista, suscitando a aglutinação em si dos mitos da Certeza, da Razão, do Progresso; assim, a ciência viu-se atribuir a missão providencial de guiar a humanidade para a salvação terrestre.
É nessas condições que a palavra Razão se torna insensata e a palavra ciência, anticientífica. Adorno e Horkheimer viram bem que a Razão (fechada) torna-se ela própria autoritária: ao estender a sua universalidade potenciral ao universo, apropria-se do universo, identifica a sua ordem à ordem cósmica ou histórica e apossas-se das leis da Natureza. A Razão, com maiúscula, abstrata e racionalizadora, instaura uma guilhotina ideológica e uma potencialidade totalitária.

Já portadoras de paixões e de violências, a mitificação e a deificação que penetram na ideologia abstrata serão penetradas pela fria crueldade da lógica, pelo delírio gelado da racionalização. Assim, o nazismo e o stalinismo associaram o frio absoluto da sua lógica e o fogo devorador da sua salvação para realizarem as maiores exterminações da história.

O fenômeno chave deste século é o desfraldar mito-religioso de grandes ideologias políticas com, primeiro, o triunfo e, depois, no fim do século, a erosão (provisória? Definitiva?) dos mitos da salvação terrestre.

MORIN, Edgar. O Método 4. As idéias. Habitat, vida, costumes, organização. Porto Alegre: Editora Sulina, 1998

domingo, 8 de julho de 2012

Sobre o fracasso da razão na ética da modernidade

Multidão faz saudação nazista no Estádio Olímpico de Berlim, nos Jogos de 1936

Gostaria de compartilhar com vocês o ensaio escrito por um aluno de psicologia da UNESP, Arthur Targa. Por ser leitor desse blog e se interessar pelos assuntos abordados aqui, ele encontrou em contato comigo para anunciar seu trabalho a respeito do nazismo. Trata-se de um texto quase arqueológico a respeito do fenômeno, trazendo à tona detalhes que muitas vezes não são abordados em discussões triviais sobre o tema, além de propor uma nova interpretação a partir da dicotomia razão x irracionalidade que já tratei, sob outro viés, em post anterior.

Deixo aqui avisado que estou apenas compartilhando o trabalho, não querendo emitir julgamentos a respeito do conteúdo - isto é, não significa que concordo plenamente com tudo que foi apresentado, só gostaria que mais pessoas pudessem ler esse escrito.


Sobre o Fracasso da Razão - Um Ensaio -

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Vampyroteuthis infernalis: irracionalidade e razão

Como combinado, fiquei de escrever um texto sobre o livro Vampyroteuthis infernalis, de Vilém Flusser. É uma das principais fontes que usarei na minha dissertação, já que o autor é base de várias das minhas hipóteses. 

No caso, o texto se refere principalmente ao último capítulo do livro, lançado em 2011 pela editora Annablume. Esse trecho, no fim das contas, acaba sintetizando boa parte das idéias discutidas ao longo da obra, mas ressalto aqui a questão da irracionalidade e do sombrio, das emoções violentas que o Vampyroteuthis representa na fábula de Flusser, a partir da minha leitura.

Tentei tornar compreensível mesmo a quem não leu o livro, mas não sei se consegui fazer isso.



O molusco que há em nós


Vampyroteuthis infernalis (2011, Annablume), de Vilém Flusser, é uma fábula na qual o pensador tcheco-brasileiro usa como personagem principal um molusco que vive em águas abissais e dá nome à obra. Este é analisado em suas propriedades fisiológicas durante boa parte das 160 páginas, que ainda contam com ilustrações feitas pelo biólogo francês Louis Bec, amigo de Flusser. Apesar de, à época do lançamento, a leitura ter provocado confusão entre o que seria real e fictício, entende-se que Flusser fala sobre o ser humano, usando o animal como uma alegoria a suas reflexões existencialistas.

O último capítulo, “A emergência do Vampyroteuthis”, sintetiza as principais considerações feitas pelo autor, que usa o molusco ora como uma representação das relações de alteridade, ora como referência às qualidades humanas. Isto é, o próprio nome do animal traz a ideia de algo profano e sombrio ao unir a figura fantástica e aterrorizante do vampiro ao atributo infernal que lhe convém. Com isso, Flusser encontra no tenebroso aspecto da criatura marinha uma outra faceta do ser humano, tão recalcada quanto a “besta” que se esconde nas profundezas do oceano, sob altíssimas pressão e temperatura.

Ainda que nós vivamos na superfície, em condições atmosféricas quase opostas às do habitat do Vampyroteuthis, há muito em comum entre as duas espécies. Um dos pontos de encontro aparece junto à prática da pesquisa e exploração. Flusser indica que, independentemente da área pela qual se siga uma investigação, inevitavelmente nos deparamos com a figura do molusco ao mesmo tempo que com a nossa própria. O motivo é que o Vampyroteuthis “habita todas as nossas profundidades, e nós o habitamos” (p.126)¹. Assim, “este encontro de si próprio no outro extremo do mundo é o derradeiro propósito de todas as explorações humanas. Porque, ‘no fundo’, o único tema do homem é o homem” (Idem).

Flusser, então, parece dizer que, no fim das contas, estamos sempre falando de nós mesmos, humanos, independentemente do que estejamos estudando. Este é o nosso ponto de partida e disto não conseguimos fugir, porque não somos capazes de pensar senão pela linha de raciocínio própria ao homem e, portanto, encontramo-nos em tudo, junto à imagem do Vampyroteuthis. Mas mais do que vislumbrar tal tendência como uma limitação de nossa espécie é entender que isso ocorre porque, justamente, o mundo interior ao humano se reflete numa “simetria de espelhos contrapostos” com o mundo exterior. E isso acontece pelo “estar-no-mundo humano. O homem se reflete no mundo, e o mundo, no homem, e este vai-vem de contraposições refletidas é a própria realidade humana” (p.126). Ou seja, os abismos das paisagens geográficas se conjecturam com os abismos interiores a nós: “os abismos refletem o explorador e o explorador os abismos” (Idem).

Montagem compara o neurônio com a simulação de um mapa do universo, o nascimento de uma célula com a morte de uma estrela e o olho humano a uma nebulosa

Se outrora as explorações visavam à busca pela pedra da sabedoria, hoje, Flusser arrisca, procuramos os limites do humanamente possível. E, nessa empreitada, afinal, sempre nos esbarramos com o Vampyroteuthis – o que não é um defeito, mas uma prova de que estamos avançando. O autor lista alguns exemplos desse encontro, levando-se em conta a teologia, cibernética, análise lógica e psicossociologia, áreas nas quais tal evento se desemboca, respectivamente, na “morte de Deus”, no pensamento programado, no cálculo proposicional e no romantismo assassino do “nazismo”. Isto é, à medida que avançamos e mergulhamos nos abismos do conhecimento (porque ele é profundo, obscuro e infinito tal qual o acidente geográfico), defrontamo-nos com a figura assustadora e terrível do Vampyroteuthis, que nos abraça e nos suga com seus tentáculos. Em consequência, nós nos perdemos nele: deixamo-nos seduzir e caímos em sua tentadora armadilha da irracionalidade.

Uma analogia desse fenômeno descrito metaforicamente por Flusser poderia ser feita conforme o filme Pi (1998), de Darren Aronofsky. Nessa obra, Max, interpretado por Sean Gullette, é um matemático que resolve estudar os padrões no mundo, reconhecendo que certas expressões numéricas se dão de forma constante, como a espiral áurea. Isto é, o personagem tenta racionalizar tudo que há na vida, entendendo que ela pode ser explicada a partir da matemática. Por outro lado, ele reconhece que há eventos que não são padronizados, como as cotações da bolsa de valores e o próprio número Pi.

Ao longo do enredo, Max se envolve numa fixação por descobrir os padrões dessas duas exceções, a ponto de ficar enlouquecido e cair nos abismos de sua própria mente – tanto que ele tem surtos frequentes, nos quais desmaia ou infringe o próprio corpo. Enquanto tenta desvendar tal problema, o protagonista ainda é abordado por um membro da Kabbalah, que enxerga em suas pesquisas uma congruência com um dos mistérios de sua seita. Ao mesmo tempo em que o matemático encontra uma certa sequêcia de números composta por 216 dígitos, ele também é alertado de que, segundo a Kabbalah, Deus tem um nome secreto que possui 216 letras – lembrando que cada letra no alfabeto hebraico rege um valor numérico e simbologia. E esse número, inclusive, é o qual agentes da bolsa querem roubar do personagem, para poder lucrar nas transações. É racional e irracional.

Uma das cenas de Pi (1998), na qual o protagonista machuca a si mesmo depois de um período de surto diante de seus estudos

Isto é, independentemente se seguimos explorando pelo caminho da matemática ou da religião, acabamos caindo nesse caos que Flusser chama de trajeto que não vai “‘até as mães’, mas é viagem de Alice ao país das maravilhas, viagem através dos espelhos” (p.127). E é nesse momento em que perdemos a sobriedade e nos deixamos ser envolvidos pelos tentáculos do Vampyroteuthis, que nos fascinamos pelas trevas, perdemos nosso controle e desvirtuamos nosso equilíbrio entre o racional e irracional.

Flusser explica tal fenômeno à metáfora da emergência do Vampyroteuthis, que explode ao se deslocar de seu nicho, em condições atmosféricas propícias a sua existência, para a superfície onde nos encontramos. Se levarmos em conta que o molusco é, nesta obra, uma alegoria do lado sombrio e da irracionalidade humana, o Id de Freud e a sombra de Jung, entendemos porque Flusser diz que o encontro com a criatura se dá em forma de morte de Deus, pensamento programado, nazismo etc. É porque, uma vez que o alcançamos, finalmente o libertamos de sua pressão física, que é nosso recalque moral. E evidenciamos que, afinal, o problema não está no bicho, mas nas forças que o mantêm aprisionado aos abismos da Terra, que são também os nossos.

No livro, o autor aponta que o Iluminismo tentou domesticar o Vampyroteuthis. Levando-se em conta que o movimento defendia a razão acima de todas as coisas, é natural que o molusco tenha se tornado um inimigo a ser conquistado, educado. Assim, por meio da ciência, as trevas da fé seriam eliminadas e o homem se fundamentaria como um ser uno em racionalidade. Pensou-se que “bastaria descomprimir o Vampyroteuthis para torná-lo inócuo e ‘civilizado’” (p.128), subindo-o pouco a pouco, habituando-o às “condições atmosféricas reinantes na esfera da luz diurna” (Idem) – Flusser, nesta citação, aproveita-se da alegoria de iluminação através da ciência e técnica que, justamente, dá nome ao movimento. Mas, no fim das contas, essa tentativa é falha: “o Vampyroteuthis não é educável e humanizável. Que, malgrado toda tolerância, é intolerável” (Ibidem). Mesmo porque, apesar de a ciência tentar se manter isenta de irracionalidade, muito dela mesma é “contaminada” por aquilo que iluministas, positivistas e ateus repudiam: até hoje, encontramos gnose entremeada à tecnologia, como denuncia, por exemplo, Erick Felinto em A religião das máquinas (Editora Sulina, 2005).

No entanto, vale lembrar também que as forças que atuam sobre o recalque do Vampyroteuthis não são mantidas pelos humanos, mas essa mesma pressão é a que faz com que o homem boie e o molusco permaneça no fundo. Se esse equilíbrio for desfeito, o molusco emerge e o homem afunda, sendo que tal troca não se dá senão como a perda total de ambos. E as consequências disso são:

“Se os teólogos elevam o inferno até o céu, é que estão infernalizando o céu. Se os cibernéticos deliberam a programação, é que estão programando a deliberação. Se os lógicos formalizam o pensamento, é que passam a pensar formas. Se os nazistas libertam a voz do sangue, é que estão sufocando em sangue a liberdade. O Vampyroteuthis não pode ser levado até a clara luz do dia: já que, ao aparecer, surge com ele a paixão resplandecente da noite” (FLUSSER, 2011, p.129).
           
Ou seja, o encontro entre homem e Vampyroteuthis é um evento perigoso, porque muitas vezes sua síntese se dá em um híbrido no qual se liberta o Vampyroteuthis no homem e o homem no Vampyroteuthis. Elimina-se um ou outro, mas dificilmente os dois se somam e se equilibram. Por isso, ao descobrir o molusco, muitas vezes caímos na tentação de assumir o mal para transformá-lo em bem ou assumimos o mal e o direito de sê-lo, bem como elevamos o inferno ao céu ou romantizamos o inferno. Esses resultados são consequência da atitude de se querer salvar a “vampyroteuthidade humana”, sobrepondo-a à “humanidade humana”.
E isso acontece porque é muito fácil se deixar levar pelos encantos das sombras e das emoções violentas do Vampyroteuthis, quando, na verdade, deveríamos buscar realizar, em nossas expedições, “um feito acrobático de equilíbrio entre a insistência no intelecto e a entrega à emotividade” (p.130). Para tal, o explorador deve tanto pensar em prol da humanidade, seja pela faceta crítica e desperta ou por sua profundidade emotiva, onírica e vertiginosa. Isto é, ao nos encontrarmos com o Vampyroteuthis, devemos entendê-lo “não apenas como núcleo do lado emotivo no homem, mas igualmente como sustentáculo do lado intelectual” (Idem), já que a sugestão de Flusser é que nós não ajamos a partir da lógica de exclusão ou inclusão, mas que façamos um amálgama das qualidades vampyroteuthicas e da racionalidade. Dessa forma, o Vampyroteuthis poderá emergir sem explodir e o homem poderá assumi-lo sem ser achatado e dominado por ele.
Para ilustrar essas duas forças, entre o irracional e o racional, Flusser faz uma outra alegoria, remetendo à mitologia grega das ninfas transformadas em monstros marinhos: Cila e Caribde representam, respectivamente, no livro, o tipo científico de expedição e o tipo “confessional”. O ponto de encontro com o mito se dá quando estas criaturas são conhecidas por aparecer aos navegantes, alertando os perigos de sua empreitada, sendo que Caribde é a única que permanece escondida – recalcada ao abismo.
É dito que Ulisses, antes de seguir sua travessia pelo mar, é avisado por Circe sobre os monstros Cila e Caribde. A primeira, dotada de seis cabeças, encontrava-se numa caverna no alto de um rochedo, atirando seus longos pescoços para abocanhar os marinheiros de quaisquer navegações que passassem a sua proximidade. Caribde, no entanto, aparecia na forma de sorvedouro quase ao nível da água, o qual engolia todo e qualquer barco que por ali passasse. Assim, as duas criaturas se tornaram provérbios que indicam “perigos opostos, no caminho de alguém” (BULFINCH, 2006, p.236). Ou seja, tanto a irracionalidade quanto a racionalidade podem aparecer numa pesquisa (trajetória, reflexão) como obstáculos devoradores, caso estes não sejam manejáveis, equilibrados: a ciência pode devorar, a emoção pode engolir.
Portanto, à medida que a ciência pretende obstinada e cegamente atuar apenas a partir da objetividade e da racionalidade, ela acaba “assassinando o Vampyroteuthis”, que no livro de Flusser representa o oposto. Dessa forma, o molusco é reduzido a sua simples condição de bicho, castrando a oportunidade de se apropriar de suas características científicas para, então, apresentá-lo em forma de fábula. Isto é, é preciso sempre dosar: tal método deve “recorrer às redes das ciências, que são os únicos órgãos dos quais dispomos atualmente para orientarmo-nos nas profundezas” (p.131) e também fazer com que tais fábulas não sejam ficções científicas, mas “científicas a serviço de pesadelos e sonhos. Devem ser ‘ciências fictícias’, isto é: superações da objetividade científica a serviço de um conhecimento concretamente humano” (Idem). Daí podemos concluir que Flusser propõe o retorno à filosofia, que não se alicerçava apenas na metafísica, mas também nas ciências naturais, como nos primórdios da corrente grega.
E essa superação deve ocorrer porque o homem, assunto central a nossa espécie, é animal das profundezas que o Vampyroteuthis o habita. Porém, a biologia, entendida como ciência a serviço apenas da racionalidade, acaba dissolvendo as virtualidades existentes no molusco. No livro, Flusser fala sobre uma célula original que funcionaria como ponto de fuga para o desenvolvimento das espécies, portanto, todas teriam em comum uma conexão primordial que é separada e distinguida a partir das ciências biológicas.
Mesmo assim, cada criatura permanece “como um monstro amputado de todas as suas virtualidades, salvo as que o caracterizam. Tais monstros se ‘entredevoram’, e a evolução vai se desenvolvendo graças a tal fratricídio generalizado” (p.132). Significa que Flusser entende que, conforme todos seres são próximos entre si, ou mesmo irmãos, a busca pela sobrevivência (do mais apto) acaba repercutindo em fratricídios. E isso não se limita apenas ao reino orgânico, mas Flusser ainda menciona que as “máquinas inanimadas” vêm também como uma ameaça à “cadeia alimentar” até então dominada pelo homem pós-industrial, pondo-o à mercê de sua defasagem quando estas máquinas começarem a se desenvolver ainda mais e ganharem características próximas ou mesmo superiores às dos humanos. Nessa passagem, na página 132, o pensador tcheco-brasileiro toca de leve em seu conceito de pós-história, abordado em livro de mesmo nome, já visando ao poder dos aparelhos e dos programas, bem como ao superdesenvolvimento da cibernética, indo de encontro com os discursos neoluditas e distopias, nas quais as máquinas “devoram” os homens – desde Metropolis e Tempos Modernos a Matrix, das máquinas fabris às cibernéticas.
Por fim, Flusser apresenta uma espécie de cena que retomaria a questão do fascínio pelo Vampyroteuthis. Narra-se a ação de um observador a encarar o molusco por detrás do vidro de um aquário, sendo que essa superfície de separação tanto lhe conforta o medo do bicho como forja uma sensação de segurança invisível, que afasta o animal do homem – assim como o recalque que o pressiona aos abismos do oceano e da alma. E esse mesmo mecanismo é o que reprime a violência do Vampyroteuthis, criatura que fascina e cria embaraço, paralisia. Porque o observador sabe que, se o vidro quebrar e o ser se libertar, teremos a explosão da sombra e da emoção violenta, o caos, o nazismo, como diz Flusser.
Mas, ainda assim, tentamos nos comunicar, entrar em acordo com o cefalópode que se esforça para manter uma conversação a partir da modificação cromáticas de sua pele. Não sabemos como reagir a isso, mas é preciso se relacionar com o outro sem transformá-lo em uma aberração (bater o cachimbo contra o vidro), sem querer fazer as pazes, educá-lo ou mesmo dar-lhe as costas e repudiá-lo. Devemos tratá-lo pelo que ele é. Por isso, a pergunta do autor-observador é: por quê dar um pneu para um molusco brincar, como se este fosse um chimpanzé? O funcionário questionado não sabe o que dizer, senão retornar à sua condição infantilizada e recalcada pelos aparelhos que o fazem informar o horário de fechamento do aquário, “conforme regulamento do sindicato ao qual pertence” (p.134). 
Concluindo, Flusser elenca alguns exemplos da presença vampyroteuthica no mundo dos homens: sob a forma de moluscos próximos, guardados em aquários; sob a forma de cadáveres emergidos no mar da China; como serpente devoradora e mitológica; como ornamento antigo; sob forma de ideologias sangrentas do programa de “direita” ou de constante orgasmo pela revolução permanente, no caso da “esquerda”. Enfim, diversas representações simbólicas são criadas, mas, acima de tudo, o Vampyroteuthis sempre esteve presente em nosso próprio espelho, como nosso antípoda. “Pois contemplar tal espelho, a fim de reconhecer-se nele, e a fim de poder alterar-se graças a tal reconhecimento, é o propósito de toda fábula, inclusive desta” (p.134), que ilumina as conexões entre molusco e homem, entre Homo demens e Homo sapiens.

Referências
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia. Histórias de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006
FELINTO, Erick. A religião das máquinas. Porto Alegre: Editora Sulina, 2005
FLUSSER, Vilém. Vampyroteuthis infernalis. São Paulo: Annablume, 2011


¹ Todas as referências sem indicação de autor se referem ao livro Vampyroteuthis infernalis.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Flusser: ideologia como forma de fascismo

Vilém Flusser

Ricardo Mendes é autor da dissertação "Vilém Flusser: uma história do diabo" (2000), pela Escola de Comunicação e Artes da Universidadede São Paulo (ECA-USP). Em seu trabalho, ele conta a história do filósofo tcheco-brasileiro, o qual contribuiu muito com o pensar a comunicação, desde as imagens (Filosofia da Caixa Preta) à escrita (Língua e Realidade), além de temas existencialistas e fenomenológicos. No capítulo "Praga, a cidade", Mendes inclui o depoimento da advogada Maria Lilia Leitão, que relembra a descrição que Flusser fez à lembrança de quando o Hitler chegou em sua cidade natal.

"Eu lembro que o Flusser relatou isso numa das reuniões da casa dele para nós, com toda a emotividade dele, de um tcheco - porque o Flusser também era um grande ator, tudo que ele falava, ele punha tanta emoção e relatava as coisas também com um certo rigor e com um certo exagero também, de bom ator. Ele contou isto, que ele tinha 15 anos*, quando ele assistiu a entrada triunfal do Hitler com as tropas nazistas, os SS em Praga. Ele estava saindo da escola, passou pelo caminho para a casa numa praça, a praça principal da cidade e viu aquela arrumação fantástica, aquelas bandeiras vermelhas, aquela coisa iluminada, o palco, não sei o quê, o agito todo, a orquestra sinfônica e ele: “O que é isto?”. E de repente ele se pôs na multidão, bem perto ali do palanque e ele conta que ele nem sabia quem era o Hitler, ninguém podia imaginar quem era, mas a sensibilidade do Flusser era tão grande de ver as coisas, a realidade, ele tinha um olho diferente. Quando ele viu aquilo ele sentiu calafrios. Por que? Primeiro aquele aparato teatral, fantástico, digno de uma ópera wagneriana: Em plena praça pública aqueles Rolls-Royces, aquela coisa, aquela tropa SS, ele descrevia - todos de 1,85m, numa mesma altura, homens do tipo ariano puríssimo, lindos, jovens, com aquele uniforme da SS que era todo preto, botas de verniz preto até aqui. Olha como eu lembro dos detalhes! Eu nunca vi isso, o Flusser me contou: aqui tinha uma caveira em prata, aqueles botões em prata e o quepe alto também com a caveira que era o símbolo da SS, luvas brancas, marchando com aquele passo de ganso e chegaram no palanque. No palanque, então, tinha a orquestra sinfônica, imagina, essa orquestra maravilhosa começou a tocar Wagner. E aí que é que acontece? Chega um Rolls-Royce - que está todo já o aparato feito - (...), abre-se a porta do Rolls-Royce e um homem baixinho, desse tamanhinho, de capa de chuva, despenteado, com aquele bigodinho, com um cigarrinho aceso e entrou para o palanque escoltado por doze homens lindos da SS. Ele falou: “Aquilo era de um ridículo! - e quem é esse homenzinho?”. E aí o cara chega e aquela multidão fanática: “Heil Hitler! Heil Hitler!” E ele falou: “Olha, eu não sabia o que era aquilo, mas eu posso dizer para vocês que eu tive um prenúncio de uma coisa terrível, satânica. E eu pensei, mas o que esse homem vai falar deve ser, assim, a mensagem das mensagens para o século... Eram frases pequenas, curtas, mais slogans. Então ele não tinha pensamento nenhum: “A raça ariana dominará o mundo...” e todo o mundo: “Heil Hitler! Heil Hitler!” E aí: A Alemanha vai se levantar...então era um... quer dizer, não era nada, era tudo teatro.
O Flusser foi um dos grandes críticos do nacional-socialismo, de todos os tipos de fascismo e nazismo que ele falava de uma forma visceral e tudo que podia ter uma semente de ideologização e de autoritarismo e de falsidade e de manipulação do indivíduo ou do social e do coletivo para ele era taxado tranqüilamente de fascismo e nazismo. Isto é... até pelas cartas dele ele era assim muito claro, ele dizia: “Qualquer coisa neste sentido isto é ideologia e toda ideologia está manchada, tingida de fascismo e de nazismo”. E eu discuti isso muito, porque eu achava isso uma coisa muito radical; eu tive vários diálogos com ele lá na França: “Mas Flusser, você não pode dizer isso, isso é uma coisa pessoal sua, porque você teve todos os dados biográficos, você viu o Hitler, a sua família toda..., mas você não pode dizer que toda a ideologia é fascista, é nazista, é uma forma de nazismo.” Ele me explicou muito bem e hoje eu concordo plenamente com o Flusser, porque ideologia para ele o que era? Era um ponto de vista, parcial, abusivo, tendencioso e que não admite outros pontos de vista. Ele dizia: “A filosofia é exatamente o contrário da ideologia. A filosofia é você ter um ponto de vista e buscar outros, tantos quantos ou mais forem possíveis de se pensar a respeito daquele problema, daquela questão. A ideologia não. Ela é... por isso que toda a ideologia leva a um fanatismo, porque é uma visão parcial”. Então, realmente, é o nazismo fascismo por excelência, não é? Você manipula os outros através da sua ideologia, porque passa a ser a sua a ideologia de tal grupo, a ideologia de esquerda, a ideologia de direita - “Isso é indigno de um intelectual” - dizia o Flusser. 
* A entrada de Hitler em Praga ocorreu em 15.03.1939, quando Vilém Fluser tinha 18 anos,conforme indica (RYBÁR, Ctibor. Jewish Prague: guide to the monuments. Czechoslovakia:TV SPEKTRUM, 1991, p.115), sendo recebido por parada de estudantes. Existe confirmaçãoda saída de Flusser de Praga, no mesmo mês, sem precisar dia, em carta de Flusser, datadade 19.02.1985, a Daniela Mrazkova e Vladimir Remes. 
(MENDES, 2000, p.6-7) 

Flusser teve pais, irmãos e avós mortos, em 1940, num campo de concentração. No ano seguinte, sua mulher e ele fugiram da Europa e vieram para o Brasil, tendo se naturalizado brasileiro em 1950. Aqui, o filósofo se aproximou de Dora Ferreira da Silva, poetisa, tradutora e estudiosa de Carl Gustav Jung.