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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Sombras, sonhos e o inconsciente em James Hillman

Depois de ter lido A terrible love of war, de James Hillman, passei a gostar bastante das ideias dele, especialmente também porque ele é um pós-junguiano. Então, na última feira do livro na USP, dando uma olhada aleatória na mesa da editora Paulus, descobri esse livrinho de menos de 140 páginas chamado Uma busca interior em psicologia e religião. Eu não entendi direito pelo título o que eu encontraria e, nas primeiras páginas, fiquei em dúvida se aquilo se tratava de um manual para terapeutas e pastores que orientam a comunidade ou se o livro também não era algo até meio autoajuda. Acredito que não seja nem um e nem outro, mas a escrita de Hillman é bem mais didática e próxima ao leitor do que a de Jung, por isso talvez passe essa última ideia.

A aproximação básica dele, até então (estou entrando no terceiro e penúltimo capítulo), é abordar as conexões e disparidades entre religião e psicologia, bem como discutir o que é o inconsciente e como ambas as áreas trabalham essa questão. As citações que separei vêm do segundo capítulo, no qual o autor trata da existência do inconsciente, suas características e o sonho como uma manifestação do mesmo. Nesse sentido, encontrei pontos com os quais eu trabalhei na minha dissertação, como a noção de um outro em mim mesmo, que é a sombra/inconsciente, e como trabalhar com isso (chegando a usar a metáfora alquímica). 

Esses trechos, para mim, foram alguns dos mais elucidativos e interessantes do segundo capítulo (Vida interior: o inconsciente enquanto experiência) e a primeira página do terceiro (A escuridão interior: o inconsciente enquanto problema moral). Por esse motivo, é possível que eu retorne com uma continuação desse post, com mais citações do terceiro capítulo.

 Pela emoção temos a percepção de não estar sozinhos em nosso interior, de não nos controlar totalmente, de que existe uma outra pessoa (mesmo que seja apenas um complexo consciente) que também tem alguma coisa (e frequentemente não pouca) a dizer quanto ao nosso comportamento. Assim, o encontro da alma por meio do inconsciente também é mais uma descoberta na qual tropeçamos. Caímos em emoções, humores, paixões e descobrimos uma nova dimensão que, por mais que tentemos fugir, acaba nos levando para baixo, em direção ao mundo de nossas profundezas.
 (p.54)

Os alquimistas tinham uma imagem excelente para expressar a transformação do sofrimento e do sintoma em valor espiritual. Um dos objetivos do processo alquímico era a obtenção da pérola de raro valor. A pérola tem início com um fragmento duro, um sintoma neurótico ou uma queixa, um agente incômodo e irritante no ponto mais secreto de dentro da carne, do qual nenhuma couraça pode nos defender. Ele é recoberto e trabalhado dia após dia, até que o fragmento acaba se transformando numa pérola. Mas mesmo assim ela ainda precisa ser buscada nas profundezas e depois aberta para libertar-se. Quando, então, o gramento já se encontra redimido, pode ser utilizado como jóia. Deve ser conservado junto ao calor da pele para manter o seu brilho: o complexo redimido, e que antes causava sofrimento, surge agora aos olhos de todos como uma virtude. O tesouro exotérico, conseguido através do trabalho oculto, transformou-se em esplendor exotérico. Livrar-se do sintoma significa desperdiçar a chance de conseguir aquilo que um dia poderá ter grande valor, mesmo que de início se apresente sob uma forma insuportável, irritante e como algo baixo, disfarçado.
(p.57)

Familiarizando-me com meus sonhos, conheço melhor o meu mundo interior. Quem vive em mim? Por que, de repente, me afasto assim das coisas? O que é recorrente, e portanto, vive voltando para permanecer? São animais, pessoas e lugares, preocupações que me pedem atenção, querendo tornar-me seu conhecido e amigo. Pedem-me para cuidar deles e dar-lhes importância. Essa familiaridade, depois de algum tempo, produz a sensação de estar à vontade e em casa com uma família interior, o que nada mais é que a vida em comum e a comunidade comigo mesmo, num nível profundo do que também pode ser chamado de "espírito consanguíneo".
(p.58)

Os problemas morais constelados nos setores dedicados ao serviço de finalidades mais elevadas são mais espinhosos, sendo aqui a divisão entre o bem e o mal particularmente estranha. Parece que enquanto tentamos iluminar, buscar a verdade e fazer o bem, um lado oposto cresce com a mesma intensidade. É um fenômeno tão independente da intenção de nossa consciência, tão difícil de ser enfrentado com firmeza e igualdade que, gradualmente, uma dissociação acaba por nos dividir. Na melhor das hipóteses aguentamos a tensão, sofrendo a dor moral. Na pior, reprimos a ruptura e o mundo se ressente dela como hipocrisia e traição. Muito dificilmente se resolverá a divisão entre prédica e prática, consciência e sombra, força da loucura e força da sabedoria, escolhendo-se um em detrimento do outro.
(p.71)

domingo, 5 de janeiro de 2014

O arquétipo da criança de Jung em Helnwein

The Song I (1981), aquarela, Gottfried Helnwein

"O motivo da criança representa a pré-consciência, o aspecto da infância da psique coletiva"¹ (p.111)

"Graças à interpretação religiosa da 'criança', uma grande parte das evidências que chegaram a nós da Idade Média mostram que a 'criança' não era apenas uma imagem tradicional, mas uma visão espontaneamente vivenciada (a tão chamada 'irrupção do inconsciente'). Estou me referindo à visão de Mestre Eckhart do 'garoto nu' e do sonho de Irmão Eustachius"² (p.106).

The Murmur of the Innocents 5 (2009), tinta a óleo e acrílica em tela, Gottfried Helnwein

"Na realidade psicológica, no entanto, a idéia empírica da 'criança' é apenas o meio (senão o único existente) de expressar um fato psíquico que não pode ser formulado mais precisamente. Por isso, da mesma forma que a idéia mitológica da criança é enfaticamente não uma cópia da criança empírica, mas um símbolo claramente reconhecível como tal: em circustâncias totalmente extraordnárias e não - este é o ponto - uma criança humana. Suas façanhas são milagrosas ou monstruosas, assim como sua natureza e composição física. Simples e unicamente por conta dessas propriedades altamente não-empíricas, é totalmente necessário falar de um motivo da criança"³ (p.111)

JUNG, Carl G.; KERÉNYI, C. Introduction to a Science of Mythology. The myth of the divine child and the mysteries of Eleusis. Londres: Routdledge & Kegan Paul LTD, 1951


1. The child-motif represents the pre-conscious, childhood aspect of the collective psyche (p.111).

2. Thanks to the religious interpretation of the "child", a fair amount of evidence has come down to us from (p.107) the Middle Ages, showing that the "child" was not merely a traditional figure, but a vision spontaneously experienced (as a so-called "irruption of the unconscious"). I am thinking of Meister Eckhart's vision of the "naked boy" and the dream of Brother Eustachius.

3. In psychological reality, however, the empirical idea "child" is only the means (and not only one) to express a psychic fact that cannot be formulated more exactly. Hence by the same token mythological idea of the child is emphatically not a copy of the empirical child, but a symbol clearly recognizable as such: quite extraordinary circumstances, and not - this is the point - a human child. Its deeds are as miraculous or monstrous as its nature and physical make-up. Simply and solely on account of these highly unempirical properties is it necessary to speak of a "child-motif" at all (p.111).

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Carl G. Jung – O problema do mal no nosso tempo

Seguindo a idéia dos posts anteriores, tanto sobre aquele sobre a culpa coletiva e sobre não entender como as pessoas são capazes de cometer certos crimes quanto o imediatamente anterior, no qual Marie-Louise Franz fala sobre o problema do mal e voltar para si mesmo, esse trecho do artigo O problema do mal no nosso tempo, de Carl Gustav Jung, aborda ambos os assuntos e dá uma iluminada nas idéias abordadas nos textos passados:

"A pessoa que deseja ter uma resposta para o problema do mal, conforme ele se apresenta hoje, necessita, em primeiro lugar, de autoconhecimento, ou seja, do conhecimento mais absoluto possível da sua própria totalidade. Precisa saber a fundo quanto bem pode fazer e de quantos crimes é capaz, e deve evitar encarar um como real e o outro como ilusório. Ambos são elementos da sua natureza e ambos estão destinados a vir à luz nele, se ele desejar — como deveria — viver sem enganar ou iludir a si mesmo. 
Mas, em geral, a maioria das pessoas está por demais distanciada desse nível de consciência; se bem que muitas pessoas hoje em dia possuem em si mesmas a capacidade para uma percepção mais profunda. Esse autoconhecimento é da maior importância, pois através dele nos aproximamos daquele estrato fundamental, ou âmago, da natureza humana onde se situam os instintos. Nessa camada profunda, estão aqueles fatores dinâmicos que existem a priori e que, em última análise, governam as decisões éticas da nossa consciência. Eles compõem o inconsciente e seus conteúdos, a respeito do qual não conseguimos emitir nenhum julgamento definitivo. Nossas idéias sobre o inconsciente estão fadadas a ser inadequadas, pois somos incapazes de compreender cognitivamente sua essência e estabelecer limites racionais para ele. Só podemos alcançar o conhecimento da natureza através de uma ciência que amplie a consciência; logo, o autoconhecimento aprofundado também exige ciência, isto é, psicologia. Ninguém constrói um telescópio ou microscópio com um estalar de dedos e boa vontade, sem conhecimento da óptica. 
Atualmente precisamos da psicologia por razões que envolvem a nossa própria existência. Ficamos perplexos e aturdidos ante o fenômeno do nazismo ou do bolchevismo porque nada sabemos sobre o homem ou porque dele fazemos apenas uma imagem distorcida e desfocada. Se tivéssemos um certo conhecimento de nós mesmos, o caso seria diferente. Estamos face a face com a terrível questão do mal e nem sequer sabemos o que está diante de nós, muito menos que resposta lançar contra ele. E, mesmo se soubéssemos, ainda assim não compreenderíamos "como as coisas chegaram a esse ponto". Demonstrando gloriosa ingenuidade, um estadista recentemente vangloriou-se de não possuir "imaginação para o mal". Muito certo: nós não possuímos imaginação para o mal, mas o mal nos tem em suas mãos. Alguns não querem saber sobre o mal e outros estão identificados com ele. Essa é a situação psicológica do mundo nos nossos dias: alguns se denominam cristãos e imaginam poder, por um simples ato de vontade, calcar o suposto mal sob seus pés; outros sucumbiram ao mal e não vêem mais o bem. O mal, hoje, tornou-se uma Grande Potência".

ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao Encontro da Sombra. O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana. São Paulo: Editora Cultrix, 2004

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Os discursos de Hitler e a culpa coletiva

Eu vi esse post do Update or Die sobre as fotos que Hitler tirava enquanto ensaiava seus discursos, a gestualidade que ele tentava dominar para então reproduzir mais tarde, quando finalmente chegasse ao poder. O fotógrafo Heinrich Hoffman era responsável por fazer as imagens do austríaco e, no final, era encarregado de se desfazer dos negativos das imagens que demonstravam o pior desempenho do futuro ditador. Mas algumas sobreviveram nos arquivos e foram publicadas em seu livro de memórias em 1955.


O autor do texto se pergunta como alguém conseguiu convencer uma nação com idéias tão absurdas como uma raça superior e outras propostas tão surreais. É realmente estranho para nós, latino-americanos nascidos no fim do século XX e vivendo no século XXI entender isso. Eu mesma, como estudante desse tema e totalmente fora da área de história, tenho extrema dificuldade pra entender (e é por isso mesmo que estudo) e é por estarmos nesse contexto mesmo que surgem outras perguntas que, quem esteve lá, não pensou.

Por exemplo, quando estive em maio em Viena, entrevistando o Gottfried Helnwein, perguntei se em algum momento o fato de ele sempre pintar e fotografar crianças loiras, brancas e de olhos claros e abordar a temática do nazismo não pudesse trazer à tona a idéia paradoxal de que ele estivesse também, por causa dessa escolha estética, abordando o arianismo. E não. Ele me disse que entendeu a pergunta, principalmente porque sou de um país de muitas etnias, mas a Áustria (e também a Alemanha) é, ou pelo menos era à sua época, um país predominantemente branco. Disse-me que nunca havia visto um negro, pessoalmente, quando era criança - isso era algo que se via na televisão. Ou seja, enquanto ele me contava isso, na maior naturalidade, soava quase absurdo: meu Deus! Como assim?! Porque aqui no Brasil é tão normal, há tanto tempo temos uma mistura étnica por aqui. Comentou que se ele fosse chinês, provavelmente fotografaria e pintaria apenas crianças chinesas e assim por diante, como também se houvesse a oportunidade de trabalhar com crianças de outras etnias antes, assim como em 2012 pôde fotografar crianças mexicanas, teria feito.

O que quero dizer com isso? Não podemos pensar como brasileiros o que aconteceu com alemães, austríacos e demais europeus. Dificilmente conseguiremos entender o que realmente foi o nazismo sem tê-lo vivido, ainda que dediquemos uma vida de pesquisa e leitura a isso, mas acho interessante, por exemplo, o que li sobre a questão da culpa coletiva em Jung. Em 1945, o psiquiatra suíço escreveu um artigo chamado Depois da catástrofe no qual ele analisou o sentimento que deu o nome de "culpa coletiva", pondo-o como conceito psicológico. Nesse texto, ele explica que a culpa de um ponto de vista jurídico só pode ser circunscrita a quem violou um direito, enquanto que como fenômeno psíquico, contudo, "ela se estende para além dos limites espaciais e humanos. Um bosque, uma casa, uma família, e até mesmo uma aldeia em que tenha ocorrido um crime sente internamente a culpa psíquica além de ser acusada externamente" (JUNG, 1988, p.18).

E é engraçado que nesse artigo Jung diz que como suíço, no entanto, ele não se vê como cúmplice do nazismo. Diz que os Europeus se punham assim, jogando a culpa das barbaridades da guerra para os alemães apenas, ainda que houvesse um campo de concentração a duzentos quilômetros dali. No entanto, como ele próprio exemplifica, se um hindu que viesse da Ásia e conversasse com ele sobre o assunto, o teria como simplesmente um europeu e as distâncias entre os continentes tornariam os duzentos quilômetros entre a Suíça e Auschwitz irrelevantes.

O mundo discrimina a Europa porque, em última instância, foi em seu solo que cresceram os campos de concentração. A Europa, por sua vez, segrega a Alemanha, apontando as nuvens de culpa que recobrem esse país e o seu povo, pois foi na Alemanha e pelos alemães que tudo isso aconteceu. Nenhum alemão pode negar, da mesma forma que nenhum europeu ou cristão, que o crime mais terrível de todos os tempos foi cometido em sua casa. A Igreja cristã pode cobrir com cinzas a cabeça e rasgar as vestes pela culpa de seus filhos, mas as sombras dessa culpa recaíram sobre eles e sobre toda a Europa, a mãe dos monstros. Da mesma maneira que a Europa precisa ajustar contas com o mundo, a Alemanha deve fazê-lo em relação à Europa. (...) A culpa coletiva psicológica é uma fatalidade trágica; atinge a todos, justos ou injustos, que, de alguma maneira, se encontravam nas proximidades do crime (JUNG, 1988, p.19).

Apesar de Jung acreditar que uma pessoa razoável seja capaz de distinguir entre o sentimento de culpa da verdadeira culpa, isto é, quando o indivíduo realmente cometeu algum delito, o psiquiatra é um tanto pessimista quanto à situação. Isto porque há muita irracionalidade envolvida no processo e quando diz que a culpa coletiva é um preconceito ou uma condenação injusta, Jung não só concorda como também diz que esta é, justamente, a sua essência irracional: "ela jamais se pergunta pelo justo e o injusto, ela é a nuvem sinistra que levanta no lugar de um crime inexpiado" (JUNG, 1988, p.20). Como fenômeno psíquico, a culpa coletiva não condena aqueles que atinge, mas constata um fato.

Para exemplificar uma situação dessas, Jung supõe um homem que vive numa sociedade em que um crime é cometido e acaba suscitando sentimentos apaixonados e interessados por parte do público. Essas emoções demonstram que "praticamente todo mundo, desde que não seja insensível ou apático de forma anormal, é excitado pelo crime. Todos vibram conjuntamente, todos se sentem dentro do crime, tentam compreendê-lo e esclarecê-lo... Algo se acende, o fogo do mal que flameja no crime" (JUNG, 1988, p.21). Citando Platão, o psicanalista suíço lembra que a visão do feio provoca o feio na alma e a indignação diante do crimoso provoca a reação violenta, mas ao mesmo tempo apaixonante, na qual o espectador tenta punir o infrator já dentro da sua própria alma. E, assim, "o assassinato acontece, em parte, dentro de cada um e todos, em parte, o cometeram. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção" (Idem).

Ou seja, não precisamos matar alguém com as mãos para poder, em nossas almas (ou mentes), repetir o ato. É a sedução pelo mal, a emergência do Vampyroteuthis sob a forma de romantismo do tipo nazismo, sob a forma de Wotan, de sombra.

Disposições morais fortes, porém, são infelizmente raras. Quando os crimes aumentam, a indignação predomina e o mal se converte em moda. De santo, louco e criminoso todos temos 'estatisticamente' um pouco. Graças à essa condição humana universal existe, em todas as partes, uma sugestibilidade correspondente ou propensão. A nossa época, isto é, os últimos cinquenta anos, preparou o caminho para o crime. Será que, por exemplo, o grande interesse pelos romances policiais não nos parece suspeito? (JUNG, 1988, p.21).

São só alguns pensamentos e algumas amostrinhas do que tenho descoberto durante minhas pesquisas do mestrado. :) Eu já tinha dado uma amostrinha dessas idéias neste post com uma citação dessa obra do Jung, mas aqui desenvolvi um pouco mais, linkando com outras postagens. Espero que tenham gostado.

Referências

JUNG, Carl Gustav. Aspectos do Drama Contemporâneo. Petrópolis: Editora Vozes, 1988

PS: Sobre a teatralidade de Hitler, a forma como ele fazia o discurso e como as pessoas entravam nisso de um ponto de vista oratório, sem entrar no mérito da oratória mesmo e da publicidade, eu acredito que isso tenha muito a ver com a questão do ritual. Agora eu não tenho exatamente referências suficientes para escrever um bom post sobre isso, apesar de ter estudado um pouquinho sobre isso durante a graduação, com ajuda do meu orientador Prof. Dr. José Eugenio de Oliveira Menezes. Conversei justamente sobre isso com uns amigos no fim de semana. Se tiverem interesse sobre isso, posso dar uma lida em algum material e fazer um novo post futuramente, só me deixem saber mesmo.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Fascínio pelo mal, em Jung

Em 1945, Jung escreveu isso sobre a culpa coletiva sentida pelos alemães e pelos europeus por conta dos crimes cometidos pelo nazismo e durante a Segunda Guerra Mundial:

"A sensação que todo crime provoca, o interesse apaixonado pela perseguição e julgamento do criminoso, etc., demonstram que praticamente todo mundo, desde que não seja insensível ou apático de forma anormal, é excitado pelo crime. Todos vibram conjuntamente, todos se sentem dentro do crime, tentam compreendê-lo e esclarecê-lo... Algo se acende, o fogo do mal que flameja no crime. Platão já sabia que a visão do feio provoca o feio na alma. A indignação e a exigência de punição se levantam contra o assassino e isso tanto mais violenta, apaixonada e odiosamente quanto mais ferver a chispa do mal dentro da própria alma. É um fato inegável que o mal alheio rapidamente se transforma no próprio mal, na medida em que acende o mal da própria alma. O assassinato acontece, em parte, dentro de cada um e todos, em parte, o cometeram. Seduzidos pela fascinação irresistível do mal, todos nós possibilitamos, em parte, a matança coletiva em nossas mentes e na razão direta de nossa proximidade e percepção. Com isso, estamos irremediavelmente imiscuídos na impureza do mal, qualquer que seja o uso que dele fizermos. Nossa indignação moral cresce em virulência e desejo de vingança quanto mais forte arder em nós a chama do mal. Disso ninguém pode escapar, pois somos todos humanos e pertencemos igualmente à comunidade dos homens. Assim, todo crime desencadeia num recanto de nossa mente múltipla e variada uma satisfação secreta que, por sua vez, em caso de disposição moral favorável, produz uma reação oposta nos compartimentos vizinhos. Disposições morais fortes, porém, são infelizmente raras. Quando os crimes aumentam, a indignação predomina e o mal se converte em moda. De santo, louco e criminoso todos temos 'estatisticamente' um pouco. Graças a essa condição humana universal existe, em todas as partes, uma sugestibilidade correspondente ou propensão. A nossa época, isto é, os últimos cinquenta anos, preparou o caminho para o crime. Será que, por exemplo, o grande interesse pelos romances policiais não nos parece suspeito?" 
(Carl G. Jung, Depois da catástrofe, 1945)

terça-feira, 7 de maio de 2013

Carl Gustav Jung fala sobre a morte


Algumas citações desse vídeo:

The psyche doesn't depend on these confinements. And then what? When the psyche is not under that obligation to live in time and space alone, and obviously it doesn't, then, to that extent, the psyche is not supressed to those worlds. That means a practical continuation of life, of a sort of kind of psychic existence beyond time and space.*

~

"Belief is a difficult thing for me. I don't believe. I must have a reason for a certain hypothesis. If I know a thing, I'm gonna know it, I don't need to believe it. If I don't allow myself, for instance, to believe a thing just for the sake of believing it, I can't believe it, but when there are sufficient reasons for a certain hypothesis, I shall accept".

~

"Life behaves as if it were going on. So I think it's better for old people to live on, to look forward to the next day as if he had to expend centuries and then he lives properly. But when he is afraid, when he doesn't look forward, he looks back, it petrifies you. He dies before his time. But when he is living looking forward to a greater adventure that is ahead, then he lives".

* tive dificuldade em ouvir essa parte, então, se tiver trocado alguma palavra, por favor me corrijam :) mas acredito que mantive o sentido daquilo que ele quis dizer, no vídeo.

Visto em OPEN CULTURE

domingo, 5 de maio de 2013

TRANSfiGURATION, de Olivier De Sagazan, e Der Untermensch, de Gottfried Helnwein



A performance TRANSfiGURATION do artista Olivier De Sagazan tem como proposta pensar sobre identidade - não aquela cultural ou nacional, mas quem somos nós? Usando algo como argila para montar seus novos rostos de aspecto monstruoso, o performer ainda colore as novas faces com tinta preta e vermelha, que são tons que bem traduzem a violência e a aflição de seus gestos e murmuros.

TRANSfiGURATION faz parte do filme Samsara (2011), de Ron Fricke, o qual contou com a produção de Mark Magidson, que também colaborou com o filme Baraka (1992). Filmado durante cinco anos, em 25 países, o longa continua os assuntos desenvolvidos em Baraka (1992) e Chronos (1985) ao explorar as maravilhas do nosso mundo, sejam estas parte do âmbito mundano ou místico, sempre tendo em vista a jornada espiritual do ser humano e as experiências vivenciadas por estes, durante esse processo. Trata-se de um filme de certa forma documental, mas que se preocupa mais em propôr uma meditação aos seus espectadores.

E a performance do francês, isoladamente, também não deixa de fazer esse convite. Ao vestir (ou mostrar) suas diversas faces (personas), Olivier quer que a audiência saia da sua zona de conforto e olhe para dentro de si, desde suas partes mais claras às mais obscuras e incômodas. Com isso poderíamos pensar no processo de individuação ou mesmo o encontro (e confronto) com a nossa sombra, um primeiro passo antes de nos aventurarmos com nossa anima.

"Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções" 
JUNG (2000, p.39).

Esse vídeo me chamou ainda mais atenção porque me lembrou os auto-retratos de Gottfried Helnwein, reunidos na série Der Untermensch (1970-1987). Nela o artista retoma aquilo que fazia no início de sua carreira artística: saía pelas ruas de Viena usando bandagens e sangue no rosto, desfigurando-se tais como os fetos deformados que fotografara na série Sleeping Angels e como demais personagens que aparecem em sua obra. O artista se torna um subhumano - um subproduto do inconsciente, um subproduto das relações humanas, a subconsciência.

The Debut (1987) - Gottfried Helnwein

"Como uma pessoa tão amigável como Helnwein consegue tornar essas - excelentes - pinturas em um espelho dos horrores deste século? Ou é isso que ele não consegue deixar de fazer? Seu espelho apenas reflete as atitudes do século? TERROR SEM FIM É MELHOR QUE UM FIM EM TERROR. Acontece de quando em quando - estimativa de morte, uma consequência das 'estastísticas' tornando-a um tabu. Perseu guilhotina a Górgona no espelho -, e quando a cabeça cai, é a sua própria. Quantas cabeças uma pessoa/homem pode ter na nossa era de espelhos?"
Müller (1988)

Referências

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Editora Vozes, 2000
MÜLLER, Henry. Black Mirror. 1988. Disponível em: <http://italia.helnwein.com/texte/selected_authors/artikel_117.html>

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Helnwein e Jung


"A anima acredita no belo e bom, o conceito primitivo anterior à descoberta do conflito entre estética e moral. Foi necessário um longo processo de diferenciação cristã para que se tornasse claro que o bom nem sempre é belo e o belo não é necessariamente bom. O paradoxo desse casamento de idéias não era um problema para os antigos, nem para o homem primitivo. A anima é conservadora e se prende à humanidade mais antiga de um modo exasperante. Ela prefere aparecer em roupagem histórica, com predileção pela Grécia e pelo Egito" p.38



"Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. (...) Para o homem da Antiguidade a anima aparece sob a forma de deusa ou bruxa; por outro lado, o homem medieval substituiu a deusa pela Rainha do Céu e pela Mãe Igreja. O mundo despido de símbolos do protestante produziu, antes de mais nada, um sentimentalismo mórbido, agravando o conflito moral que, por ser insuportável, conduziu logicamente ao 'além do bem e do mal' de Nietzsche." p.39


JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Editora Vozes, 2000